a religião pode ser uma benção ou uma maldição, é preciso pensar como abordar esse tema em sala de aula

Fanáticos não têm dúvidas! Ensimesmados em suas pretensas verdades, estão convictos de que o mundo inteiro deve ouvi-los porque, segundo eles, fora de seus próprios preceitos não há salvação, seja neste mundo, seja no próximo.

Com essas pessoas, infelizmente de pouco ou nada valem argumentos bem fundamentados. Afinal, esse grupo – que pode ser encontrado tanto no Ocidente quanto no Oriente – não está disposto a ouvir nem sequer uma única linha que contradiga sua própria limitada experiência.

Refutam tudo o que é novo, diferente, incomum e estranho à sua condição ou educação. Fechados em si mesmos, creem encontrar segurança e força contra todos os tipos de “males”, que podem ser dos mais variados: uma teoria científica nova e totalmente diferente daquela a que se acostumaram por séculos, uma proposta alternativa de alimentação, maiores liberdades para as mulheres… a lista pode se estender muito e você, ainda que negue e não se encaixe nos exemplos acima, pode fazer parte de um desses grupos, mesmo que não manuseie explosivos e abertamente se considere equilibrado e favorável ao diálogo com quem pense de forma distinta, embora na prática não seja exatamente assim.

De todos os extremismos, perigosos em si mesmos, os piores são aqueles pautados na religião. Alguns dos maiores grupos extremistas religiosos parecem não se preocupar muito em matar ou morrer, porque tendem a estar profundamente convencidos que suas crenças, ainda que contrárias a qualquer fundamento ético, estão acima da vida e da morte de quem quer que seja. Como é possível que grupos assim possam ainda existir e lamentavelmente crescer em pleno século 21, onde, ao menos para populações inteiras dos mais distintos países, há muito mais liberdade de expressão e acesso a múltiplas fontes de conhecimento? As motivações podem ser as mais diversas.

As “razões” extremistas

A grande maioria dos grupos de extremistas religiosos existentes e atuantes no mundo contemporâneo apelam às suas próprias questões históricas nacionais para justificar seus atos. Acreditam que foram prejudicados ao longo de seus processos de formação nacional, seja na história antiga ou recente.

Infelizmente, todos esses grupos acreditam serem possuidores de uma razão que está acima da própria racionalidade. Por isso apelam a seu deus e/ou líder religioso máximo e não se importam muito em buscar uma metodologia equilibrada para interpretar seus próprios textos sagrados. Afinal, extremistas são a antítese do equilíbrio. Em alguns casos, por conta do acirramento de certas questões, grupos fanáticos são criados a partir de outros, extremamente violentos, mas considerados “light” por esse último. É precisamente o caso do Estado Islâmico, nascido das ruínas da Al Qaeda, liderado por Osama Bin Laden, que arquitetou a destruição das Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001.

Além das questões nacionais, uma das maiores razões responsáveis pelo aumento do número de grupos terroristas, bem como o aumento do número de recrutados longe de seus locais de origem pode estar na falta de sentido na própria vida. Afinal, como explicar, por exemplo, que um jovem nórdico, de classe média, com boas notas e com família supostamente bem estruturada largue tudo o que possui e vá para um país totalmente estranho do seu, se submeta a treinamento militar e esteja pronto para explodir uma bomba ou levar um tiro?

Muito provavelmente a falta de sentido para a vida pode ser um fator fundamental que o levou a fazer o que fez. Essa falta de sentido pode ser percebida em nosso mundo atual com grande facilidade, visto que múltiplas verdades relativas e facilmente substituíveis têm sido apresentadas em detrimento daquela verdade que pautou grande parte do mundo ocidental ao longo dos últimos dois milênios.

Quando jovens ricos ou pobres não encontram perspectivas para suas miseráveis existências, ainda que a pobreza não seja apenas material, qualquer outro caminho que supostamente lhes dê esperança ou motivação para viver se torna interessante. É necessário que cada um, em sua própria condição, tenha sonhos e desejos que transcendam a materialidade, ou, em outras palavras, que os reais e mais bonitos desejos sejam maiores que aqueles que o dinheiro pode comprar.

Há um equilíbrio possível que fornece a cada ser humano possibilidades saudáveis de buscar a plenitude entre o biológico, o psicológico, o social e o espiritual. Se há um desequilíbrio em qualquer uma dessas áreas, em muitos casos, há buscas radicais e desequilibradas para que essa questão se resolva.

Grupos extremistas são liderados por homens eloquentes que possuem um discurso extremamente agradável aos ouvidos de quem está perdido e em busca de um caminho para se ancorar. Por ser esse discurso extremista pautado na religião, a chance de se cooptar esse jovem é muito maior, porque a ele se oferece uma fraternidade de amigos que pensam e vivem como ele foi levado a pensar e viver. Mais do que isso: esse pensamento, ainda que deturpado, ultrapassa a sua própria vida e agora lhe apresenta possibilidade real de salvação, não apenas do tédio e da falta de sentido desse mundo, mas por toda a eternidade. Esse jovem ganha uma “boa” razão para lutar e morrer. Por isso esses grupos são extremamente perigosos: o que está em jogo não é um bom pagamento em dinheiro por suas ações terroristas, mas uma “recompensa eterna” pelo “bem” que ele faz ao possibilitar a instauração desse novo mundo.

A guerra ao terror

Visualizando dessa forma, não se trata de uma guerra convencional de um exército contra outro a partir de um motivo de suposto interesse nacional. De uma forma bastante resumida, basicamente o que move guerras convencionais é o dinheiro, indiretamente. Quando o Iraque de Saddam Hussein invadiu o Kwait, no final dos anos 80, para logo em seguida iniciar a Guerra do Golfo, onde milhares de soldados americanos partiram contra as forças iraquianas, o que estava em jogo, em primeiro plano, foi libertar os iraquianos do jugo de um ditador desequilibrado. Ao menos foi isso que a grande imprensa noticiou. Mas a verdade é que o Iraque é um dos maiores produtores de petróleo, e qualquer estudante sabe o que o petróleo hoje significa para o mundo.

Assim, apesar dos americanos terem livrado o Iraque de Saddam Hussein, eles se tornaram ainda mais ricos ao explorar as infindáveis fontes petrolíferas daquele país. Contudo, quando a questão é extremismo religioso, os grupos terroristas não utilizam necessariamente fardas e não necessariamente lutam por um grande poço de petróleo ou mina de diamante, embora até para eles a posse desses lugares seja de imensa importância. A luta é contra uma ideologia, ainda que torpe. E ideologias não podem ser impolidas com dinamite ou rajadas de metralhadora. Por isso é tão complicado lutar contra esses grupos e nem mesmo o império militar americano conseguiu de forma clara diminuir consideravelmente suas forças.

Xenofobia

Com o acirramento de guerras convencionais e o aumento da atuação de grupos terroristas, é cada vez maior o número de refugiados que tentam desesperadamente entrar na Europa ocidental, onde estão concentrados alguns dos países mais ricos e desenvolvidos do planeta. Entre a Grécia e Macedônia, pontos de entrada na Europa, até chegar a Alemanha, país que a grande maioria desses imigrantes almeja, o caminho é extremamente longo e muitas vezes humilhante. Além disso, leva a Europa um novo problema: como lidar com populações inteiras que desesperadamente e de forma precária tentam chegar ao Velho Mundo? Uma das consequências da Primeira Guerra Mundial, bem como da Segunda, foi a xenofobia, aliada à crise econômica e ideológica. Será que nosso mundo contemporâneo está mais preparado para enfrentar o problema em relação ao ocorrido cem anos atrás?

Diante disso, o que pode fazer o professor?

Em primeiro lugar, professores, para muito além de conhecimento acadêmico indispensável para sua atuação devem ser homens e mulheres sensíveis aos muitos problemas que afetam a todos nós. Docentes que não se interessam pelas questões que afetam seus alunos, ainda que consideradas insignificantes, provavelmente não terão sensibilidade para pensar e falar sobre problemas que atingem seres humanos fisicamente distantes de nós. Alteridade e empatia precisam ser conceitos vividos por esses profissionais tão valiosos. Alunos de todas as idades devem ter o privilégio e o direito de conviverem com profissionais assim.

Afinal, só pela educação vivenciada e progressiva, mentes e corações podem ser transformados e essa situação calamitosa pode ser efetivamente combatida. Portanto, deve-se levar esse conhecimento tão atual e importante não apenas pelo viés histórico, sociológico, antropológico ou mesmo filosófico, mas sim pelo vivencial, fazendo com que cada aluno perceba que as dificuldades e tristezas do outro podem ser minimizadas pelo nosso esforço e dedicada atuação, ainda que distantes.

Fábio Darius é doutor em Teologia Histórica e professor do Unasp-EC