Instrumento cada vez mais importante na aprendizagem, jogos pedagógicos necessitam de planejamento e embasamento teórico para funcionar dentro da sala de aula.

 A pesquisadora Francisca de Oliveira é uma entusiasta da utilização dos jogos pedagógicos em sala de aula. Doutora em Psicologia Educacional pela Unicamp e professora do curso de pedagogia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Francismara lembra que o jogo está presente em nossa vida e deve ser usado sem preconceito. Ela critica a ideia de que o recreio seja o momento do brinquedo e a sala de aula o do estudo. “O jogo não se dissocia da condição de aprender”, acredita. Confira abaixo a entrevista completa.

 

Revista Escola Adventista _ Li recentemente uma frase interessante que dizia o seguinte: “A estimulação, a variedade, o interesse, a concentração e a motivação são igualmente proporcionados pela situação lúdica”. Atualmente se prega principalmente no âmbito educacional a teoria do “se aprende brincando”. Qual é o real significado do “lúdico” no ambiente escolar?

Francismara Neves de Oliveira _ Nós precisamos pensar no sujeito da aprendizagem, precisamos pensar quem é essa criança, esse adolescente que está no processo de aprendizagem. E para o desenvolvimento, a relação entre o lúdico, o aprender, o construir e o realizar são quase que diretas. É próprio da criança e do desenvolvimento dela brincar, mas também é próprio do adulto. As formas de jogo se modificam, mas jogar, brincar, atuar e representar são formas de relação com a vida. Então neste sentido não tem como a escola prescindir da condição do brincar, do jogar.

 

REA _ Quando e como os jogos pedagógicos são pertinentes para sala de aula?

Francimara _ Eles são sempre pertinentes. Precisamos entender que existe uma condição de planejamento, de realização de embasamento teórico que vão permitir a utilização do jogo pedagógico. Não é apenas tê-los em sala de aula, não serve apenas oportunizar ao sujeito o contato com o jogo, por que o jogo por si só não provoca o desenvolvimento e as aprendizagens que a criança precisa realizar. O jogo tem uma dimensão de suscitar, por meio das interações que este provoca. Mas a gente precisar atuar pedagogicamente diante do jogo. Então o que torna este jogo pedagógico é o tipo de intervenção e o uso que nós realizamos no contexto escolar.

 

REA _ Muitas vezes existe um momento distinto na cabeça das crianças do “brincar” no recreio ou nas aulas de educação física. Até que ponto essa ideia de que “o recreio foi feito para brincar e a sala de aula foi feita para estudar” atrapalha para que o conceito e a eficácia dos jogos em sala de aula sejam atingidos em sua forma plena?

Francimara _ Eu acredito que atrapalha bastante.  Nós temos uma organização escolar rígida, onde se acredita que o aprender não pode ser prazeroso e aquilo que é prazeroso não gerasse aprendizagem. Isso é uma contradição historicamente construída, está arraigada no universo escolar. Há uma resistência de educadores de todos os níveis de escolaridade, das famílias que algumas vezes não aceitam essa questão do “brincar”, por que acreditam que a criança esteja perdendo tempo, ou até mesmo ociosa quando deveria estar aprendendo e pensando. Mas quando nós observamos o jogo nessa completude, de que ele compõe o desenvolvimento da criança, do adolescente e do adulto, de que o jogo têm elementos que engendram uma construção cognitiva, social e afetiva, percebemos que o jogo não se dissocia da condição de aprender. Então essa cisão, momento do jogo e o momento da aprendizagem, não se sustenta. Quando analisamos as teorias que embasam o trabalho pedagógico e que observam a importância do brincar no desenvolvimento infantil, jogo na escola, percebemos que todas essas teorias que você apontou, e que realmente estão inseridas no contexto escolar, são frutos do senso comum. Estes vão de encontro com as teorias que adensam a relação entre jogo e educação.

 

REA _ O jogo pedagógico é necessariamente comprado, adquirido já pronto?

Francimara _ Não. Não mesmo. Ele é produzido, inventado, reproduzido e é trabalhado com os mais diversos tipos de materiais. Porque a gente precisa retirar do jogo o valor messiânico dele. Não está no objeto, nem no jogo em si as fontes de aprendizado, mas nas relações que os sujeitos vão estabelecer com este objeto de conhecimento. Então os materiais mais diversos podem ser incorporados na produção de um jogo, dissipando a ideia de que este seria para as escolas que possuem mais recursos. Além disso, nós temos outra questão: os jogos mais caros hoje, presentes no mercado, estão empobrecidos em diversos aspectos devido à industrialização. Além de segregar e deixá-lo restrito a algumas famílias, estes já vêm prontos e exigem pouco da interação com o brinquedo, o que não é nada interessante para esta proposta que a gente faz em relação ao jogo. O material pode ser o mais rico possível, inclusive o corpo da criança, e o primeiro elemento de jogo é o próprio corpo. Então se tem desde o corpo até o mais rico material, possibilidade de construção de instrumentos para trabalhar o lúdico.

 

REA _ Você comentou na resposta anterior que existem muitas ofertas de jogos e que a maioria deles, embora se intitule como “jogos pedagógicos”, estão nas prateleiras apenas por uma questão mercadológica. Como o professor pode fazer essa distinção do que é pedagógico e o que não é?

Francimara _ Todos os jogos podem ser anunciados como pedagógicos, mas o que precisa ser pedagógico é o olhar e a postura do professor. Não basta estar escrito na caixa do jogo “jogo pedagógico” por que isso é um efeito de marketing, mas eu posso como professor, ainda que aquele material tenha uma proposta não pedagógica, posso transformá-la em pedagógica se o professor tiver uma postura tal. O embasamento teórico do jogo junto ao olhar do professor é necessário. Por que às vezes a gente acha que o jogo é um objeto que todo mundo pode trabalhar e neste sentido ele é um pouco desvalorizado. Ao mesmo tempo em que é dado um poder muito grande de consertar a educação e de substituir tudo aquilo que nós já temos na escola e os materiais didáticos, o que não é verdade. E por outro lado, a gente também desvaloriza quando deixa o jogo restrito a um âmbito que não favorece toda essa complexidade que é o desenvolvimento humano. Então nós precisamos olhar para o jogo com uma postura pedagógica.

 

REA _ Numa palestra você afirmou que “jogo é vida”. Em qual sentido essa afirmação se aplica?

Francimara _ Essa afirmação é de um teórico de renome dentro desta discussão que é o Lino de Macedo. O professor Lino faz uma analogia muito interessante entre as dimensões que estão implicadas no jogo. Sejam afetivas, sociais, cognitivas, morais e as relações que a gente estabelece na vida, nas relações interpessoais, nas diferentes instâncias nas quais a gente atua. Então é nesse sentido que jogo é vida, ele diz:“ a gente joga para não adoecer”. Porque jogo é saúde, jogo é vida além de te colocar em condições de pensar, de sentir, vivenciar e experimentar coisas que os outros elementos não vão provocar e evocar. Então jogo tem essa riqueza.

 

REA _ O jogo está presente na vida de todos sempre. E na área de educação a gente percebe que existe um foco maior na educação infantil, ou seja, ensino fundamental I. Mas funciona com os alunos de fundamental II e até mesmo ensino médio?

 Francimara _ Funciona. O jogo está em todos os momentos do ciclo vital. Pesquisas estão sendo feitas com grupos de idosos e fantásticos são os resultados. O jogo serve em todas as dimensões, ele não tem uma relação de classe econômica e nem de idade, ele não tem barreiras. Ele pode e deve ser trabalhado em todos os níveis de desenvolvimento. Um pouco disso que você coloca como observável, mesmo no contexto educacional, tem a ver com o fato de que a psicologia começa o estudo da criança e do adolescente. As teorias desenvolvidas no século 20 enfatizaram mais o desenvolvimento infantil e do adolescente. É bem recente o estudo voltado para a gerontologia, estudos voltados para o idoso e também para a vida adulta. Aos poucos é que esses elementos importantes do desenvolvimento estão sendo discutidos. Isso não é apenas uma característica do jogo, mas uma característica dos estudos em geral que pensaram pouco na vida adulta e na velhice. Mas ele está presente em todos os ciclos.

 

REA _ Como fazer com que a competição se torne algo positivo e não em algo negativo?

 Francimara _ Em primeiro lugar a gente tem que reconhecer que a competição é algo importante, ela faz parte da vida e está presente no nosso cotidiano. O que nós não podemos é negá-la, e sim trabalhar com ela. Se a gente consegue entender que as crianças são mais competitivas quando elas são mais egocêntricas e esse egocentrismo é essa característica de desenvolvimento que ela está vivenciando, nós vamos atenuar o peso moral que nós damos para competição. Não vamos considerá-la tão negativa assim, vamos perceber que ela faz parte do desenvolvimento do sujeito naquele momento. Mas é claro que a gente precisa trabalhar o sujeito para além do que ele tem, se é a característica dele ser assim. Então a gente não quer que ele continue assim, a gente quer que ele evolua e cresça. Não podemos trabalhar a cooperação e a competição em pontos extremos. Tanto não iremos alcançar a cooperação, porque em algum momento nós iremos ser competitivos, como podemos nos arraigar, que assim é e assim tem que ficar. Evitando esses dois extremos, a competição pode ser atenuada com jogos em diferentes arranjos, permitir que as crianças joguem com parceiros muito diferentes e que acima do valor “ganhar o jogo” ela tenha o prazer de jogar. Nós adultos também qualificamos o desempenho, nós também supervalorizamos o aluno que tira a melhor nota, mas esquecemos de valorizar o aluno que se esforçou muito durante o bimestre e que teve um progresso maravilhoso, mas a nota não foi a melhor da sala, só que o progresso que ele obteve foi muito mais importante do que aquele aluno que está acostumado a tirar dez, que tem facilidade naquela matéria. Então quando a gente tira o foco do produto e pensarmos mais no processo, nós vamos conseguir atenuar o peso da competição sem considerá-la negativa.


REA _ Com a sua experiência nesse estudo de jogos, quais os erros comuns cometidos por professores dentro de sala de aula nessa área e nesse sentido?

 Francimara _ O primeiro erro deles é ter o dia específico para o brincar, fazendo uma cisão entre o aprender e o brincar. A segunda é a falta de preparo para trabalhar com o jogo, por que para trabalhar com o jogo a gente precisa estudar o jogo, que também é um trabalho intencional do professor. E essa intencionalidade é garantida com base no adensamento teórico. O professor precisa ter competência teórica e muitas vezes não é isso que acontece e por uma série de razões. E uma terceira questão que eu apontaria é que a escola ainda não entendeu o valor do jogo, este ainda é um apêndice, algo de menos importância. Então acho que essas três coisas aliadas têm feito com que o lugar do jogo na escola esteja equivocado. Isso é uma questão de reorientação conforme as pessoas vão se acostumando e vendo possibilidades variadas e diversos campos teóricos que sustentam a questão do jogo. Assim o trabalho vai se modificando.

Thiago Basílio é jornalista, mestrando em Divulgação Científica e Cultural (Labjor/Unicamp) e editor-chefe da revista Escola Adventista.