No ano de 2010, Vera Aparecida de Lima Severino, professora do 3º ano do Colégio Unasp-EC tem seu primeiro contato com a Metodologia da Problematização e o uso do Arco de Maguerez apresentado pela doutora Betânia Stange Lopes, coordenadora do curso de Pedagogia do Unasp-EC, que a incentivou, assim como as demais, a desenvolver a proposta em sua turma. “No início foi complicado, apavorante”, comenta Vera.

Entre as incontáveis atividades a serem realizadas, surgiram várias inquietações constatadas por ela como imensas dificuldades. Como colocaria a proposta do arco em prática na sala de aula? Como associaria a metodologia da problematização e o uso do livro didático? As dúvidas não a impediram de tentar.

O Arco de Maguerez e a prática pedagógica

Segundo a pesquisadora Neusi Aparecida Navas Berbel, professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), essa proposta ganha espaço no meio educacional por tratar-se de uma metodologia ativa.

O modelo é trabalhado a partir do Arco de Maguerez (abaixo), o qual apresenta um esquema interessante distribuído em cinco etapas: observação da realidade, pontos-chave, teorização, hipóteses de solução e aplicação à realidade. Essas etapas serão resumidas a seguir, a partir do exemplo vivido pela professora Vera. Ela aplicou tal metodologia em uma turma doimagens escola adventista_2 terceiro ano do ensino fundamental, com a temática “Saúde”. Sua ideia foi desenvolver conteúdos interdisciplinares.

Observação da realidade e pontos-chave

Para fazer a observação da realidade, a professora Vera iniciou a metodologia quando escolheu a obra paradidática O rato do campo e o rato da cidade, da autora Ruth Rocha. Para ajudar os alunos na observação da realidade, Vera organizou uma dramatização a partir da leitura e da interpretação do livro.

Após esse primeiro momento, a professora promoveu vários questionamentos direcionando os alunos para o conteúdo proposto. Entre as perguntas, podemos destacar: “o que vocês compreenderam com a apresentação?”, “quais os perigos de uma cidade grande?”, “no campo não há perigos?”, “qual dos dois personagens principais é mais feliz?”, “por que as pessoas que moram na cidade geralmente são mais estressadas?”, “por que o rato da cidade não abandona a cidade e muda para o campo?”, “é fácil mudar seus hábitos e seu modo de vida?”, e “existe alguma dúvida que vocês gostariam que fosse pesquisada?”.

Todas as falas dos alunos foram anotadas e, assim, tornou-se possível a elaboração do problema, objeto da pesquisa: “será que as pessoas que moram no campo são mais saudáveis?” e “é possível ser saudável vivendo na cidade?”

A partir do diálogo, o próximo passo foi levantar os pontos-chave a serem estudados para responder os problemas da pesquisa. Ela separou os seguintes: 1) o estilo de vida dos moradores do campo e da cidade; 2) as diferenças no relevo do espaço rural e urbano; 3)alimentos no campo e industrializados.”

Teorização

Este foi o momento do estudo e da pesquisa, por isso, os alunos realizaram várias atividades, como, por exemplo, entrevistar uma nutricionista; analisar rótulos e embalagens; coletar informações com agricultor sobre como preparar o solo para o plantio;  e conversar com moradores da cidade e do campo investigando seu estilo de vida. Com o resultado dessa etapa, foi elaborado um relatório de conclusão da pesquisa com orientações sobre hábitos de vida saudável no campo e na cidade.

Hipóteses de solução e aplicação

Após o estudo realizado com trabalhadores do campo e da cidade, se fez necessário o levantamento de hipóteses para solução do problema. Entre as diferentes possibilidades, os alunos escolheram fazer um folder com os resultados da pesquisa para entregar aos entrevistados no dia da conclusão do projeto. O material construído pelos estudantes abordou orientações e recomendações sobre como melhorar o cotidiano, tendo mais saúde no campo e elevando a qualidade de vida na cidade. Eles concluíram que as pessoas podem ser saudáveis vivendo tanto na zona rural quanto na urbana; quem mora no campo tem mais oportunidade de viver de maneira saudável, comendo de suas plantações; os moradores da cidade têm à disposição feiras e supermercados que vendem grande variedade de produtos saudáveis.

A partir das hipóteses de solução, os alunos planejaram atividades práticas. Elaboraram o folder, programaram um momento na escola que estivessem presentes os participantes da entrevista para receberem o material por eles organizado, além de filmarem e fotografarem a entrega do material. A realização de uma autoavaliação de cada aluno sobre seu envolvimento no projeto também figurou como uma importante etapa para concretização dos processos.

A metodologia foi aplicada aos alunos com grande sucesso e todos aprenderam muito, até mesmo a professora. “Percebi que é possível. A proposta não impede que os conteúdos do livro didático sejam trabalhados, ainda que haja mudança na ordem dos mesmos”, explica Vera.

 

Como fazer

A metodologia da problematização

Todo professor anseia por uma turma participativa, animada no processo de construção de novos saberes. Trabalhar com projetos proporciona essas e outras oportunidades. A sugestão abaixo está fundamentada na Metodologia da Problematização.

  1. Observação da realidade

Leve o aluno à observação a partir de um livro, vídeo, notícias ou contexto real. Oriente a turma a olhar atentamente e registrar tudo o que visualiza. Também é possível escolher um único problema para toda a classe estudar ou selecionar vários outros e dividi-los em grupos.

  1. Pontos-chave

Faça a pergunta: por que esse problema existe? Faça uma análise criteriosa da situação em busca de
solução. Elabore os pontos essenciais que deverão ser estudados para responder à questão maior. Liste os pontos-chave a serem pesquisados.

  1. Teorização

Organize os alunos para a investigação, levando-os à biblioteca na busca por livros, revistas, pesquisas já realizadas ou jornais, por exemplo. Convide para a aula especialistas sobre o assunto; incentive-os a elaborarem questionários que darão base para responder o problema. Todas as informações devem ser analisadas. Tudo precisa ser registrado.

  1. Hipóteses de solução

Três perguntas precisam ser feitas: “o que precisa acontecer para solucionar o problema?”, “o que precisa ser providenciado?”, “o que pode realmente ser feito?”. Pense todos os ângulos possíveis que se obteve sobre o problema. Junto com os alunos, elabore alternativas para resolução do mesmo.

  1. Aplicação à realidade

As decisões que foram determinadas precisam ser executadas. Retome todos os passos, veja as soluções encontradas. Esse é o momento do compromisso dos alunos com o meio, ou seja, “ação-reflexão-ação”. Elabore um texto para arquivo com todos os registros e principalmente com a ação final do projeto.

Última dica

O programa pode ser finalizado com um grande evento, sendo apresentado numa mostra cultural, feira de ciências ou até mesmo no famoso dia D das escolas adventistas. Mãos à obra!

Saiba mais: BERBEL, N. A. N. A problematização e a aprendizagem baseada em problemas: diferentes termos ou diferentes caminhos? Interface – Comunicação, Saúde, Educação, v. 2, p. 139-154, fev. 1998.

Raquel Pierini é mestre em Educação e professora do curso de Pedagogia do Unasp-EC.

Rebeca pizza é mestre em Educação, doutoranda na mesma área e professora do curso de Pedagogia do Unasp-EC.