Mario Sergio Cortella sugere um modelo no qual a família, as instituições de ensino e toda a sociedade repensem os direcionamentos da educação na atualidade.

“Pago caro. A escola precisa colocar meu filho na linha!”. Este é um típico pensamento legitimado por diversos pais. Para Mario Sergio Cortella, não seria o caminho mais efetivo em direção à formação ética de um estudante. O filósofo defende que a parceria entre família e escola precisa se tornar algo real e comum. Doutor em Educação pela PUC-SP, Cortella acredita que escolarização é apenas uma parte do processo, que, na verdade, se inicia no lar.

Referência em pesquisas no âmbito pedagógico, ele atuou como secretário municipal de Educação de São Paulo, no início da década de 1990. Além da atividade política, escreveu várias obras na área educacional. Cortella também carrega em sua bagagem a espiritualidade dos tempos em que foi monge, isso se reflete em diversas publicações de sua autoria que analisam o sentido da vida humana.

Seus estudos perpassam temas que envolvem a educação libertadora, ética, multiculturalidade, antropologia filosófica, epistemologia e currículo, tornando-o um dos grandes formadores de opinião do Brasil. Durante décadas atuou como professor titular do Departamento de Teologia e Ciências da Religião e de pós-graduação em Educação da PUC-SP. Em conversa com a REA, Cortella sugere que a sociedade repense os métodos avaliativos utilizados atualmente pelas escolas.

 

Revista Escola Adventista _ Atualmente uma das grandes dificuldades dos professores é a maneira de avaliar se o aluno realmente aprendeu o que foi proposto em aula. Muito se fala de um ensino integral, que não fique apenas na decoreba, mas que trate o aprendizado como um processo complexo. Entretanto, a realidade das escolas não é essa, o que ainda impera é a nota de 0 a 10. Como você vê essa realidade e quais as chances de algo mudar?

Mario Cortella _ A primeira coisa é que a gente não pode esquecer que, quando você avalia a aprendizagem, está avaliando também o ensino. É absolutamente impossível avaliar o que o aluno aprendeu, sem que isso signifique uma avaliação do que foi ensinado e como foi ensinado, afinal de contas, se somos educadores, e nos chamamos de profissionais, isso significa que a tarefa de fazer com que alguém aprenda é nossa. E nessa hora, se por acaso existe algum tipo de deslize nessa relação, é necessário que a gente reveja o modo como estamos ensinando para entender porque não se está aprendendo. De maneira geral, isso resulta da ausência de um planejamento integrado entre as várias disciplinas. Afinal de contas, quando você integra as disciplinas de um projeto, há possibilidades de uma escolha mais tranquila daquilo que precisa ser ensinado. Por isso é necessário, sim, que a gente altere o modo de planejamento de maneira que a avaliação não seja entendida como auditoria, que ela não seja uma mera casta ao responsável e, acima de tudo, consiga ser, de fato, aquilo que orienta o que precisa e vai ser feito.

 

REA _ E quais seriam os primeiros passos em busca de um melhor método de avaliação?

Cortella _ O primeiro deles é saber o que se deseja avaliar. É a atitude? O conteúdo? É a capacidade de autonomia do aluno? Há muita gente em escola que usa a avaliação como sinônimo de disciplina. Isto é, de disciplinamento. Por exemplo, um professor passa essa ideia quando ele, no momento em que a classe está mais ruidosa ou em estado de uma certa perturbação, manda todo mundo guardar o material e diz: “Prova sem consulta e sem aviso”. Ao fazer isso, o professor está criando uma conexão para os alunos de que a finalidade da avaliação é punição, em vez de ser de fato a reorientação do processo. Por isso, o primeiro passo é saber o que se deseja avaliar: o conteúdo aprendido? A autonomia no manejo desse conteúdo? A capacidade de valor em relação a ele? Afinal, qual é a intenção com a avaliação? Após estruturar qual é a intenção, o segundo passo é fazer com que haja a organização de instrumentos avaliativos que consigam capturar essas informações, mas sem saber qual é a finalidade da avaliação, de nada adianta.

 

REA _ Estamos falando sobre a importância do professor se preparar para ensinar ética para seus alunos. Mas você também defende que todo o processo de educação não se dá apenas em sala de aula, mas em todos os contextos e instituições. Mas, quando a família/sociedade se encontra tão desestabilizada, como o professor deve reagir? Até que ponto é seu dever se importar com esses alunos sem estrutura?

Cortella _ Tem que se importar porque, antes de mais nada, somos irmãos e irmãs, é uma questão de fraternidade e solidariedade. Mas a escola não pode assumir sozinha toda a responsabilidade de ter que mudar o mundo. É necessário que a família seja voltada para a sua tarefa. Se a família está desestruturada, há pessoas na família que não estão. Afinal, é uma família e podemos supor que ela não é diminuta, mas expandida. Não há só o pai e a mãe, há outros nesse circuito que podem ser chamados para assumir sua tarefa. A escola sozinha não dará conta desse tipo de formação e nem deve tentar fazê-lo, porque isso seria irresponsável.

REA_Antigamente existiam matérias como Organização Social e Política Brasileira (OSPB). Hoje, apesar de um grande levante popular contra “tudo que existe por aí”, parece que nossos jovens não estão sendo bem preparados politicamente. Por que você acredita que isso ocorre? Como a escola deveria se preparar para mudar essa realidade? A volta dessas disciplinas seria uma das maneiras de não sermos politicamente ignorantes?

 Cortella_Essas duas disciplinas, a Educação Moral e Cívica e a Organização Social e Política Brasileira, foram introduzidas durante a ditadura. Isso significa que elas cumpriam uma tarefa específica por parte do governo autoritário. E, claro, é absolutamente contraditório que a formação de cidadania se dê de maneira obrigatória, dentro de uma escola, por intermédio de uma matéria que foi implantada pela estrutura ditatorial. O conteúdo em educação moral e cívica ou o conteúdo em OSPB precisa aparecer dentro da escola, mas não obrigatoriamente como disciplina. Esse conteúdo deve parecer disperso no sentido de repartido entre os outros conteúdos que a escola coloca. Não precisa haver uma matéria com esse nome específico. Aliás, o que fez com que houvesse uma educação política mais combativa de pessoas em gerações anteriores não foi da existência dessas disciplinas, que, aliás, tentavam fazer exatamente o contrário. O que fez é que havia uma consciência da necessidade de se reforçar a democracia. Nos tempos atuais não há tanto esse combate. E a inexistência desse combate contra uma estrutura autoritária levou a que algumas pessoas, especialmente jovens, entendessem como sendo algo natural no nosso dia a dia a participação democrática. Por exemplo, tem gente que no dia da eleição reclama de ter de votar, quando há trinta anos uma parte das pessoas lutava para que houvesse eleição e voto. Hoje parece óbvio ter que votar ou ter que sair para fazê-lo, por isso é necessária uma formação, um conteúdo histórico que apareça como projeto da escola, para que não se despreze a importância participação democrática, algo que é um valor importante para a ética e a política. Hoje não há necessidade de uma matéria especifica, especialmente no ensino fundamental. No ensino médio pode-se ter alguma que tenha uma discussão sobre ética e cidadania para se aprofundar algumas coisas, especialmente por intermédio de seminários.

 REA_No livro Sobre Esperança, você e o Frei Betto dizem que é preciso resgatar o sentido original da expressão “ser humano” e fazer jus a ela em nossas ações, no cotidiano. O que você quer dizer com isso? E como isso se aplica ao contexto educacional, principalmente à docência no ensino básico?

Cortella_A primeira coisa é que há muitos modos de ser humano, entendido aí o ser como verbo e não como substantivo. Há muitas maneiras de “ser” humano. Essa identidade não é exclusiva, ela tem faces e interfaces com os outros modos de ser humano. Mas aquele que é o sentido original da ideia de ser humano é o que nos coloca no campo da fraternidade. Portanto, a ideia de uma unidade acima de qualquer coisa é a ideia de fraternidade. A ideia de ser humano é aquela que acredita que a regra na vida é \“um por todos e todos por um”. A fragmentação do humano é quando a gente entende que a regra é cada um por si e Deus por todos.

 REA_Você tem escrito bastante sobre o sentido da vida humana, como por exemplo no livro Não espere pelo epitáfio. Se consideramos que muitas pessoas ainda defendem a docência como uma “missão” e como um propósito superior, deixando de lado problemas como a pouca valorização e os baixos salários, seria possível encontrar um ponto de equilíbrio entre o se apaixonar pelo trabalho e o não depender totalmente dele para “se encontrar a cada dia”?

Cortella_É muito difícil que alguém que se dedique à docência tenha outra atividade que seja mais encantadora. A pessoa pode ter até uma atividade complementar que faça com que ela tenha um aumento da condição econômica. Mas eu não tenho dúvida de que quem escolhe a docência como um modo de vida vive de fato um modo de vida e não um emprego. Nesse sentido, a dedicação não depende exclusivamente das condições de trabalho, embora para que haja uma qualidade de ensino ainda melhor é preciso, sem dúvida, se dedicar a uma melhora nessas condições. Penso que as condições de trabalho negativas são mais um elemento para que a gente faça um esforço coletivo ao invés de ser para nós uma barreira. Aqueles que têm a docência como um modo de vida não abrem mão, mas lutam por ele.

 

 

Ruben Santana é jornalista.