Quando a escola promove competições deve se considerar que, acima de tudo, aquele é um momento de aprendizagem

Na Grécia antiga era difícil manter a paz entre as cidades, entretanto por ocasião dos jogos, para garantir a segurança dos atletas, as guerras eram interrompidas promovendo a união no mundo grego. Além disso, a competição era considerada um evento especial de significado religioso, político e esportivo, que servia para a valorização do corpo capaz de resistir todas as formas de competição, sendo a beleza do mesmo tão importante quanto o intelecto.

Nesse contexto, as competições em várias modalidades, disputadas entre os atletas das cidades da antiga Grécia, inauguraram as Olimpíadas. Então surgiu, na cidade de Olímpia, os Jogos Olímpicos no ano de 776 a. C. e disputado até o ano de 393 d. C., sendo registrado 293 jogos. Historiadores relatam que, depois de vários anos adormecidos, em 1896 os jogos olímpicos modernos ressurgem em Atenas, com participação de aproximadamente 235 atletas, de 13 países, disputando 8 modalidades de esporte. Poucos anos mais tarde, os jogos, que até então eram amadores, migraram para o profissionalismo esportivo.

Jogo na escola

Em 2000 os Jogos Escolares Brasileiros (JEBs) passaram por modificações propostas pelo Ministério da Educação, Ministério do Esporte e Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Nessa ocasião, cada escola teria que montar sua seleção e participar de etapas municipais e estaduais para assim chegar à etapa nacional, tornando mais democrática a participação.

O esporte historicamente se enraizou na educação física até mesmo pela compreensão que tinha o objetivo de educar o físico. Assim, até meados de 1980, a educação física tratou o esporte priorizando sua dimensão técnica-competitiva. Nessa mesma década iniciaram-se discussões sobre como o esporte poderia ser percebido e praticado na escola e não somente uma reprodução do esporte de alto rendimento dentro da instituição, caracterizando o esporte ou jogo.

Alguns estudiosos da educação física começaram a criticar este formato, justificando que as técnicas e formas aprisionam a expressividade do corpo humano. Numa perspectiva educacional, que visa o desenvolvimento integral do ser humano, é possível perceber que a educação do corpo transcende as habilidades adquiridas apenas pelas técnicas e gestos esportivos. Por exemplo, podemos perceber a real integração da educação do corpo com as capacidades cognitivas nos estudos sobre a psicomotricidade e corporeidade.

Modificados em 2000, os JEBs trouxeram poucas alterações para aproximar o esporte a uma concepção pedagógica mais aceitável. Nesse sentido, vale ressaltar a contribuição da regra em que o aluno inscrito na súmula de jogo tem que participar de, no mínimo, um tempo de jogo. Esse procedimento evita que os professores, no intuito apenas da vitória, privilegiem os jogadores com melhor habilidade esportiva. Acredita-se ser essa regra um avanço, entretanto, não pode ser considerada como o ideal.

Outra regra é a do desempate, que pode motivar o massacre pois o placar do jogo é estimulado para ser amplo, podendo ter vantagem no desempate da classificação. Este fato deve-se ao regulamento dos jogos que privilegiam o índice técnico em vez do viés pedagógico, já que estamos no ambiente escolar.

Outro aspecto refere-se ao investimento de algumas escolas em jogos, com o objetivo de vincular os resultados neles conquistados em vender positivamente a imagem institucional, como se fosse uma garantia da sua visibilidade. Fato esse que muitas vezes promove impacto no projeto pedagógico da educação física escolar, por torná-la apenas um meio de aprimorar os resultados nos jogos, desprezando mais uma vez os aspectos pedagógicos.

Jogos da escola

Pode-se vivenciar novas formas de disputa? O jogo da escola leva uma conotação do jogo adaptado para o ambiente escolar, com viés pedagógico educacional. Desse modo, o ótimo rendimento é aquele que é possível alcançar sem a necessidade da máxima eficiência. As regras podem e devem ser alteradas para propiciar cada vez mais a motivação pelos jogos; para adaptar ao interesse e necessidade dos participantes; para favorecer a coletividade, cooperação e solidariedade.

Outro aspecto que merece destaque é o desafio de fazer da competição um recurso que busque tanto a excelência pessoal, quanto a coletiva, sem objetivar a vitória a qualquer custo. Essa prática de valorizar a vitória em vez do que foi conquistado por meio dos jogos é comum na escola, principalmente em jogos de alto rendimento realizados nesse espaço, por serem incluídos como uma das atividades curriculares.

Nesse sentido, percebe-se a importância da instituição romper com o modelo do esporte na escola, que prioriza o rendimento esportivo, a individualidade em vez do coletivo, a vitória a qualquer custo sem respeitar as diferenças físicas, sociais, econômicas, psicológicas, cognitivas e os aspectos morais e éticos.

Assim sendo, fica o desafio para a instituição de idealizar novas práticas esportivas que contribuirão para uma mudança da concepção de esporte. Essa mudança exige não apenas do educador físico, inclui também a participação de todos os envolvidos com o ambiente escolar. Espera-se que o esporte escolar promova ao estudante uma perspectiva de lazer e saúde, evitando que a concepção de rendimento seja o único aspecto a ser objetivado.

As práticas pedagógicas podem tornar a educação física um componente curricular significativo para a vida do aluno. Na medida em que o esporte escolar promove um espaço de aprendizagem, os gestos e os movimentos surgem de forma prazerosa e criativa, privilegiando o exercício da cidadania, a cooperação e a valorização das capacidades individuais. Desse modo podem ser evitadas exclusões e rivalidades.

Diante disso, vale refletir sobre a possibilidade de modificação das regras e hábitos utilizados em jogos de alto rendimento, para favorecer um ambiente pedagógico. Segundo Costa em seu artigo Esporte escolar no Brasil: contradições e possibilidades (Revista Kinesis, v. 33, n. 1, 2015), ao serem transformadas, “atenderão aos interesses e às necessidades dos participantes, e que, sobretudo, ajudarão a otimizar a cooperação e a solidariedade.”

 

Heber do Ouro Lobes Silva é educador físico e fisioterapeuta, mestre em Educação Física e professor do Unasp-EC.