A ficção permeia o cotidiano humano e tem a capacidade de alcançar de forma singular a vida e o imaginário social

A literatura tem seus encantos. Quando escrevo o nome literatura, refiro-me à ficção narrativa. O professor de qualquer matéria tem em mãos uma ferramenta poderosa para elevar o interesse e a atenção do aluno para o conteúdo da aula. Antes de mostrar o poder da ficção, preciso escrever sobre um incômodo relativo à literatura nas escolas confessionais. Sempre me perguntam se a literatura influencia as crianças, os adolescentes e jovens. A pergunta vem permeada de preocupação, querendo significar que o enredo lido captura a vida do incauto leitor deixando-o sem consciência para tomar as decisões corriqueiras.Todas as coisas influenciam nossa vida, mas não nesse sentido. Desde um livro de história, de ciências, de gramática, a uma música instrumental, bem como um filme ou sermão exercem ação sobre a vida. Mais: fotografia, carro, tecnologia, noticiário, pintura, paisagem, alimento, roupa, um copo de suco e um sorvete num dia ensolarado influenciam nossa condição psicológica ou emocional. Tais coisas, objetos e símbolos estão aí para manipular, tentar, seduzir e provocar nosso desejo.

A realidade não garante a humanidade entre as pessoas. A ficção reclama a sensibilidade humana. As notícias diárias veiculadas na TV e internet, por exemplo, influenciam deveras o leitor alterando sua sensibilidade relativa ao sofrimento humano. A ficção, por sua vez, luta contra essa situação e requer do leitor uma postura contra a coisificação e a insensibilidade do ser humano. A ficção que tenta colar-se à realidade cai no mesmo problema do noticiário cotidiano. A boa literatura provoca os sentimentos de bondade e benevolência para com o semelhante, e instiga a compaixão e a piedade para com os injustiçados e desfavorecidos.

Dito isso, partamos ao poder da literatura que, de alguma forma, foi mostrado. Quando qualquer tema se alia à ficção ganha interesse e importância. Não é sem razão que os livros mais vendidos, portanto mais lidos, são obras de ficção. Há algo na ficção que provoca esse fenômeno. Seu poder está na capacidade de conduzir razão e sentimento simultaneamente. A razão convence os neurônios cerebrais. A racionalidade é preciso; os livros das ciências cumprem esse papel. Por seu turno, a emoção compele o coração. O sentimento é necessário. Os livros de autoajuda cumprem esse papel.

Já a ficção junge razão e emoção num só momento; toca as cordas do cérebro e do coração e provoca as maiores decisões no instante da leitura ou diante da tela e ouvindo uma narrativa. Com essa arma poderosa à mão, o professor pode realizar proezas na sala de aula. Como? Contando uma bela história que pode vir em forma de conto, causo, romance, crônica ou tragédia. Não vai mais do que cinco minutos para o aluno entender tudo o que a teoria da aula se propõe a transmitir.

Imagine que eu esteja dando aula de sociologia, de história, psicologia ou mesmo de religião. Para provocar o interesse da classe, eu conto a seguinte tragédia: “um rei, certo dia, se chateia porque uma praga assola parte do reino. Ao consultar o Oráculo, é aconselhado a eliminar a causa da desgraça: um homem matara o pai e se casara com a própria mãe. O rei passa a investigar para descobrir o infame. Quanto mais ele junta as provas, mais desconfia que o assassino do pai Laio é ele mesmo; e é ele, o rei, quem se casara por engano com a própria mãe Jocasta. O rei Édipo sai do reino e fura os olhos para que, ao se penitenciar, tenha uma nova visão da vida”.

Bom, essa pequena narrativa gera discussão interminável, porque toca em problemas que dizem respeito a cada ouvinte. Levanta situações reais, porém de modo criativo e provocativo. Ficção é interesse de todos; todos os dias. Ela apresenta a vida real e alcança a mente e o coração.

 

Afonso Cardoso é doutor em Literatura Brasileira e diretor de Graduação do Unasp-EC