Quando se trata de criança, movimento não significa apenas diversão. A psicomotricidade une corpo, mente e aprendizado.

As palavras “criança” e “movimento” são quase sinônimos práticos, enquanto “movimento” e “aprendizagem” podem parecer antônimos. Mas, na verdade, estes últimos estão inteiramente ligados quando se fala de habilidades motoras. Ausência delas pode acarretar problemas associados à absorção de conteúdos e desenvolvimento cognitivo.

O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Psicomotricidade, Luiz Gustavo Vasconcelos, entende que a motricidade se contrapõe à ideia grega de que corpo e alma devem ser compreendidos separadamente. “O ser humano não é um todo divisível e nem partes fragmentadas”, define e aponta para a necessidade de profissionais que entendam o poder desta ferramenta que pode solucionar ou amenizar a problemática de muitos estudantes que carecem de auxílio para “pensar o seu movimento”.

Apesar de a psicomotricidade ser uma área da saúde, muitos profissionais da educação têm procurado estuda-la, pois há uma relação clara entre corpo e aprendizagem. Assim, movimento é fundamental para que a criança consiga se encontrar no espaço e entender conceitos sensoriais e espaciais, bem como outros necessários ao aprendizado.

Para Gislaine Granjeiro, professora de Educação Física e especialista em psicomotricidade, o conhecimento do próprio corpo e suas necessidades levam a criança a se relacionar com o meio em que está inserida. “Essa Inteligência enfatiza seus movimentos naturais e estimula o desenvolvimento e a capacidade de ultrapassar obstáculos através de ações e conscientes e de experiências vivenciadas e adquiridas em todas as etapas da vida, justifica.

Além deste fator, outro que merece destaque é a capacidade que a criança desenvolve de domínio dos comportamentos nos aspectos motores e afetivo-sociais. Tal capacidade estimula, ao longo do tempo, a autoconfiança e o melhor conhecimento de suas capacidades e limites, condições necessárias para uma boa relação entre indivíduo e espaço. “O professor deve lembrar que é necessária a utilização de elementos lúdicos em sala de aula. Os alunos precisam sentir prazer em participar das atividades acadêmicas”, enfatiza Gislaine.

Vasconcelos acredita que psicomotricidade só funciona a partir do momento que ela é instituída como uma prioridade na sala de aula. Mas é preciso esclarecer que todas essas medidas devem estar dentro de um contexto cultural, político e pedagógico adotado pelas instituições de ensino.

No Brasil, este tema – cujos principais braços são a dinâmica global, o esquema corporal, a atenção e a concentração e o tônus – é estudado principalmente por psicólogos e professores de educação física. Algumas escolas até oferecem a prática, mas geralmente são as clínicas de psicopedagogia que mais trabalham com a ciência.

Selma Carvalho, coordenadora do curso de pedagogia do Iasp, critica a falta de investimento, por parte das faculdades de pedagogia do país, na área da psicomotricidade. Felizmente, várias universidades, tanto públicas como particulares, oferecem cursos de pós-graduação na área. Boa oportunidade para quem gosta e vê as bolas, cordas e bambolês como armamento poderoso no combate aos problemas de aprendizagem enfrentados por muitos estudantes.

Dinâmica corporal: Trabalha com os grandes músculos do corpo (voltado para desenvolver o equilíbrio e coordenação motora ampla). Sem esse aspecto, a criança tem dificuldades para sentar e focar o que está sendo estudado, podendo resultar em problemas de aprendizagem. Exemplos: atividades de rolar, rastejar, engatinhar, andar, correr, saltar e subir, com consciência corporal. Educadores deverão chamar a atenção da criança para perceber tensões corporais e amplitude de movimento.

Atenção e concentração: Trabalha o foco. É extremamente importante para com que o aluno preste atenção em sala de aula. Trabalha-se com a lanterna em classe escurecida para a criança procurar o foco. Ela deve estar sentada e com as mãos espalmadas sobre a carteira.

Esquema corporal: Trabalha com noção das partes do corpo (nome-ação, discriminação, percepção de si e do outro), lateralidade, dominância lateral e outros aspectos. Isso é fundamental para a criança, principalmente na escrita. São atividades de desenho do corpo, percepção das suas partes em si e no boneco (não confundir com um simples desenho feito para outra finalidade, o trabalho deve ser realizado com papel carbono entre as folhas A4, por exemplo).

Tônus: É o grau de tensão muscular ideal para se trabalhar e realizar atividades. Necessário para postura da criança, fator que interfere em muitas situações de aprendizagem. Ele é trabalhado com atividades semelhantes à fisioterapia ou terapia ocupacional, relaxando pequenos músculos da mão e realizando movimentos de tensão por todo o corpo. Porém, o objetivo é a consciência de cada movimento e o grau de força empregado.

 

Sabryna Ferreira é redatora da REA e estudante de jornalismo no Unasp.