Descompasso entre som e grafia na compreensão textual não é falta de inteligência.

Dentre os problemas relacionados com o aprendizado, e que precisam de um acompanhamento que extrapola a sala de aula, está a dislexia. Se a dislexia não é uma doença, nem um distúrbio de aprendizagem, então do que se trata?

Ela tem a ver com uma alteração neurofisiológica, que é a dificuldade de representação da escrita. Ou seja, existe uma alteração no sistema nervoso central, onde a linguagem é concebida, que dificulta a compreensão entre som e símbolos, fazendo com que a criança encontre dificuldade para ler e compreender o que se lê. E não se trata de uma disfunção oftalmológica como pensavam os pesquisadores em 1872.

No entanto, estudos recentes nos campos da pedagogia e de medicina possibilitaram uma nova abordagem sobre a dislexia. Segundo a professora Carla Lopes, orientadora educacional do Colégio Unasp, em Engenheiro Coelho, SP, existem alguns fatores que podem atrapalhar a vivência. “Familiaridade, frequência, idade da aquisição, repetição, significado e contexto, regularidade de correspondência entre ortografia-som ou grafema fonema e interações podem, sim, contribuir para a ocorrência da dislexia”, enumera ela.

Possíveis causas

Do ponto de vista clínico, ainda é difícil determinar as razões exatas da dislexia, assim como acontece com o autismo e a gagueira. Existem três linhas de pesquisa que apresentam fundamentações teóricas bem consistentes. Mas como ainda não existe comprovação científica, recomenda-se cautela ao fazer afirmações sobre a dislexia, como, por exemplo, a de que ela é hereditária.

Uma vez realizado o diagnóstico, o trabalho a ser a realizado com esses alunos é de extrema importância no sentido de auxiliá-lo a resolver e superar suas limitações. E claro, não podemos esquecer de trabalhar em parceria com outros profissionais como psicopedagogo e fonoaudiólogo.

Segundo a fonoaudióloga Blacy Gulfier, doutora na área pela Universidade de São Paulo, dificuldades de decodificação fonológica e dislexia, distúrbios que envolvem o sistema nervoso central e que interferem no aprendizado, tornam necessário o acompanhamento do fonoaudiólogo.

Tratamento

“É um pouco difícil detectar a dislexia antes da fase escolar, até porque um dos acontecimentos da dislexia é a desestruturação escrita”, enfatiza Blacy. “Outros fatores podem se revelar indícios do problema, como a dificuldade de calcular, memória a curto prazo e trocas, omissões e substituições de letras e fonemas na fala”.

Umas das primeiras coisas que muitos pais costumam pensar acerca do filho disléxico é que ele não é inteligente. A fonoaudióloga afirma que a dislexia não tem a ver com a pessoa ser menos inteligente. Tem a ver com a pessoa ser inteligente, e possuir dificuldade com a representação gráfica nas questões de escrita. “É como se o disléxico entendesse o que ele precisa fazer, mas na hora de construir, é confuso para ele”, enfatiza.

O disléxico terá que conviver com esse distúrbio para o resto da vida, mas não significa que não possa aprender a conviver com essa dificuldade. É aí que a medicina e a educação passam a andar juntas.

Como lidar com a dislexia em sala de aula (por Caroline Oliveira, professora, graduada pela Unesp)

  • Observar cada aluno atentamente, suspeitando de qualquer comportamento que se identifique com os sinais;
  • Após a detecção do problema, contatar e contextualizar a família da criança;
  • Encaminhar a criança a um especialista (fonoaudiólogo e/ou psicólogo);
  • Trabalhar em conjunto com os profissionais, dando o suporte necessário em sala de aula e respeitando o ritmo de aprendizado do aluno com dislexia;
  • Não se deve anunciar para as outras crianças que há entre eles um coleguinha disléxico (até porque as crianças não entenderão a profundidade do problema). O tratamento só é bem-sucedido quando a criança é tratada normalmente e sem constrangimentos, levando em consideração suas limitações.

 

Kemelly Ferreira é redatora da REA e estudante de jornalismo do Unasp.