A ficção tem impacto na verdade. Ou seria o contrário? A ficção é um método de interpretação da realidade. O professor poderia usá-la com sucesso.

A ficção é condenável por quem a considera falsidade, uma vez que pura imaginação. Sim, a ficção é produto da imaginação; um escritor inventa realidades e, com isso, gera uma história fantasiosa: a ficção. Se a narrativa ficcional trouxer pontos de contato com a vida real, o evento será verossímil, pois parecerá verdadeiro ou possível de acontecer de fato; mas se parecer absurdo, sem contato com a realidade, então será inverossímil. De qualquer modo, é fantasia, mentira, indigna, então, de ser lida, pois influenciará a mente do leitor.

Contrapondo essa concepção, tratarei da coerência da ficção e de seu impacto na verdade – ou na realidade, como preferem alguns. Começo com uma afirmação da jornalista Marina Morisawa sobre o longa Até o último homem, que “ficcionaliza” a história de Desmond Doss, soldado americano que foi para a guerra sem armas: “O roteirista precisou cortar partes que aconteceram na vida real por serem exageradas para a ficção”. No alvo. Trechos da vida de Desmond Doss são inverossímeis, absurdos, improváveis de acontecer na realidade. Mas aconteceram. A ficção considerou tais passagens terríveis, aterradoras para serem contadas.

Mesmo assim, há quem prefira apresentar em sala de aula o insólito. E eventos idênticos criados ou retomados na ficção são condenados. Eu me nego a assistir às barbaridades do Estado Islâmico disponíveis na internet. Esses fatos não me edificam, vão perturbar minha paz, meu sono por muitas noites e me deixar aterrorizado; por muito tempo esse terror ficará na minha mente, estragando alguns sabores do lado bom da vida. Cenas dessa cruel realidade são inconcebíveis. Certos jornais vespertinos na televisão são uma afronta, especialmente porque repetem à exaustão a mesma facada, o mesmo tiro e o mesmo tombo. Cumprem a função de criar a insensibilidade pela vida humana. O tiro sai pela culatra. A apresentação de tal realidade não transforma a pessoa em ser humano.

Já a ficção procura dar coerência à vida, criar um propósito e construir a sensibilidade aos conflitos diários. A todo momento ela propõe uma releitura da vida. Cria istmos entre os fatos cruéis da realidade. Com isso, produz uma fantasia porque propõe uma ligação possível para o entendimento da vida; gera, assim, reflexão das ações terríveis do cotidiano das pessoas. A ficção é um método de interpretação da realidade. Ao instigar a reflexão, a ficção cria suscetibilidade a violência e à crueldade, além de ajudar o leitor a se impor contra a retificação e a coisificação, para que cada pessoa seja vista como pessoa, não como objeto. Claro: há ficções que não conseguem alcançar essa realização estética. Há realidades que também não conseguem.

Com tais afirmações, está explicitado que a ficção tem impacto na verdade. Ou seria o contrário? A insistência da ficção está em desvelar a realidade. Isso parece inverossímil. Mas não é; ela provoca uma leitura a “contrapelo da história”, como gostava de afirmar Walter Benjamin em suas teses. Mas quem ou quando o público saberia de que mulheres negras foram protagonistas dos cálculos complicados para enviarem o homem à Lua com segurança? Foi preciso a ficção entrar em cena e “ficcionalizar” a real história e impactar a verdade dos fatos. A ficção do longa Estrelas além do tempo altera completamente a verdade dos fatos. As autoridades da história são obrigadas a virem a público e confirmar a fantasia como verdade.

Como educadores, necessitamos ter equilíbrio no trato com a ficção, que é um produto cultural como qualquer outro, do qual nossos alunos não escapam. Logo, precisamos instrumentalizá-los para entenderem o papel da boa ficção, e não nos tornarmos risíveis, instruindo sobre coisas que não correspondem à realidade da vida.

 

Afonso Ligório Cardoso é Doutor em Literatura Brasileira pela Unesp e diretor de Graduação do Unasp-EC.