os alicerces da educação adventista devem estar fundamentados na palavra de Deus

A expressão “integração fé e ensino” tem se tornado um clichê entre os círculos educacionais no âmbito confessional cristão. Em geral, as pessoas mencionam e escutam essa expressão, pressupondo que o significado dela é claro e simples, mas acabam não refletindo de forma adequada sobre a profundidade teórica e prática desse conceito. Resumidamente, existem duas posturas extremas que atrapalham uma compreensão profunda do trabalho de integração fé e ensino. O primeiro extremo assume que a linguagem de integração é inadequada e o outro extremo confunde integração com interação.

Alguns educadores adventistas questionam a linguagem de integração entre fé e ensino. Segundo eles, falar sobre a necessidade de integração já pressupõe equivocadamente que a fé e o ensino são coisas inerentemente distintas e separadas. Esses educadores indicam que, de acordo com a perspectiva bíblica holística da fé e ensino, não faz sentido falar em uma integração de coisas que não podem ser separadas. Embora essa crítica ao uso da linguagem de integração seja correta em termos do ideal bíblico holístico de fé e ensino, a crítica não parece levar muito em conta o profundo impacto do problema do pecado nas construções conceituais acadêmicas e nos processos educacionais que caracterizam a realidade escolar e universitária de nossos dias. Em outras palavras, a visão holística de fé e ensino é certamente o ideal bíblico, mas a realidade geral de nosso mundo está bem distante desse ideal. No mundo de pecado em que vivemos, a tendência é de compartimentalizar a fé e o ensino. Essa é a herança que recebemos das estruturas educacionais que antecederam o sistema educacional adventista e que também caracterizam estruturas educacionais atuais que são contemporâneas ao sistema adventista. Essas estruturas, que percebem a religião e o conhecimento científico como entidades completamente distintas e necessariamente separadas, certamente exercem forte influência na maneira como a educação é entendida e praticada em nosso mundo.

Por conta dessa influência no mundo de pecado que vivemos, onde há uma desintegração até mesmo proposital da fé e do ensino, faz-se necessário agir intencionalmente para que integração seja realizada. Assim, os esforços para a integração pressupõem uma realidade pecaminosa em nosso mundo bastante diferente da situação ideal holística apontada na Bíblia. A integração procura avançar na direção desse ideal.

A compartimentalização entre religião e ciência, fé e ensino, é um paradigma tão dominante em nosso mundo, que muitos educadores podem pensar estar praticando integração fé e ensino, quando, de fato, eles estão realizando apenas uma interação entre fé e ensino. Em última instância, a proposta de integração é bem mais audaciosa do que muitos educadores podem pensar. A interação entre fé e ensino é algo simples e fácil de se fazer. Mas a integração fé e ensino, quando levada aos seus efeitos plenos, é muito mais profunda e complexa. Para exemplificar essa distinção entre interação e integração, vamos adaptar uma tipologia do relacionamento entre ciência e religião preparada por Ian Barbour em seu livro Quando a Ciência Encontra a Religião: Inimigas, Estranhas ou Parceiras.  Barbour sugere 4 tipos de relacionamento, a saber, (1) conflito, (2) independência, (3) diálogo e (4) integração. Esses tipos estão em uma ordem crescente de relacionamento. Embora o tema desenvolvido por este autor é a questão da religião e ciência, a adaptação dessa tipologia ao relacionamento entre fé e ensino é bastante útil. O primeiro tipo (conflito), em realidade, não prevê um relacionamento entre fé e ensino. Eles são vistos como antagônicos. Normalmente, essa perspectiva permeia círculos acadêmicos que veem a religião como algo irracional. Religião ou fé, nessa visão, é anti-intelectual. O segundo tipo (independência), tem uma visão mais favorável à religião e a fé. Nessa perspectiva, a fé não é antagônica à ciência e a educação, mas ela é algo pessoal e interior. Ela não tem nada que ver com o estudo acadêmico e a ciência. Desse modo, você pode ter a sua fé, mas você não a usa para fazer ciência ou para o ensino acadêmico. O terceiro tipo (diálogo) tem uma visão ainda mais favorável da fé. Existem pontos de contato entre ela e o ensino acadêmico. Nesses pontos de contato, é possível haver um diálogo entre essas duas áreas. A fé, por exemplo, pode trazer os importantes princípios de moralidade, excelência e dedicação para a prática acadêmica. É nesse diálogo que ocorre uma interação entre fé e ensino. No entanto, o quarto tipo (integração) é o mais audacioso em relação ao papel da fé no ensino acadêmico. Não existem meramente pontos de contato entre a fé e o ensino. Todo o ensino é fundamentado na perspectiva da fé. Isso é bem mais do que mero diálogo ou interação. A Bíblia não é um livro de ciências, mas os conceitos bíblicos acerca da realidade criada devem prover as lentes por meio das quais enxergamos e interpretamos os dados a serem analisados na prática científica e as informações a serem ensinadas prática docente.

 

Adriani Milli Rodrigues é Professor do Unasp e doutor em Teologia pela Universidade Andrews.