o poder da palavra e seus sentidos no contexto da escola

Se há um tema sobre o qual parece haver consenso dentro dos estudos da linguagem é o de que podemos proferir X para, na verdade, significar Y. Oliveira e Basso, em Arquitetura da conversação – teoria das implicaturas, ilustram isso assim: Pedro e João são amigos, moram em Florianópolis e praticam o surfe. Ambos sabem que as melhores ondas acontecem quando começa a chover. É terça-feira. Mesmo assim, em pleno horário de expediente, Pedro liga para o escritório de João e diz: “- Tá chovendo”. E este responde: “- A gente se encontra onde?” Ora, sabemos que Pedro não teve a intenção de significar X, isto é, de informar o que João já sabia sobre a chuva, mas de significar Y, ou seja, convidar o amigo para irem surfar. E é justamente a Y que João acertadamente responde.

Teóricos da linguagem como Oliveira e Basso veem situações semelhantes à relatada como casos de implicação ou implicatura conversacional. A marca principal das implicaturas é que seu sentido depende de saberes oriundos de um contexto específico compartilhado pelos participantes da interação e não na própria sentença em si. Repare que se o mero acesso ao diálogo entre Pedro e João apenas, não garante o processamento do sentido de X como um convite à prática do surfe. Por isso tais situações podem ser incluídas entre os casos em que a interpretação se reveste de “opacidade” discursiva, já que o sentido não depende só do conteúdo da sentença, mas de fatores pragmáticos.

O tipo de “opacidade” do exemplo acima, contudo, é bem-intencionado, já que se vale do princípio de cooperação – uma espécie de acordo implícito compartilhado pelos participantes do diálogo, que implica esforço e cooperação para se fazerem compreendidos e, em contrapartida, para compreenderem o outro favorecendo a economia, eficácia e sucesso da comunicação.

Há, porém, discursos com níveis de opacidade mais densos e problemáticos. Ocorrem, geralmente, em ambientes institucionais competitivos em que relações de poder estão em jogo. O que destoa, nesses casos, é que um interlocutor ao se dirigir a outro proferindo X, simula sinceridade e finge respeito às regras do princípio de cooperação para ocultar sua verdadeira intenção de levar o outro a acreditar que X significa X mesmo, quando na verdade significa Y.

E o princípio da cooperação, cuja exploração deveria favorecer a comunicação, acaba sendo explorado para o mal, para o prevalecimento da palavra dúbia e cinzenta da mentira, lisonja e falso testemunho. Com o agravante de o mentiroso ficar na “confortável” situação de sustentar que o dito foi X mesmo, e não Y ou Z. Ao outro, caso não acredite no engano, sobra a tentação de entrar nesse jogo utilizando-se dos mesmos recursos, seduzido pela falácia de que afinal nunca se diz o que realmente se quer significar.

Quando isso ocorre, a palavra mal-intencionada assume o controle seguida quase sempre por sentimento de culpa, amargura e perplexidade, trazendo às relações interpessoais a ameaça do não admitido, do silenciado, daquilo que se teme, mas não se ousa explicitar, sob risco de se cair no ridículo por trazer à tona algo impossível de ser levado ao tribunal da razão, visto não ser palpável.  A comunicação, assim desviada de seu bom propósito, soa distorcida como um CD fora de rotação. Transforma-se num faz de conta em que prevalece uma linguagem perigosa, sem escrúpulos e sem limites.

Desnecessário dizer que o educador cristão não deve ceder espaço a esse tipo de linguagem em suas relações interpessoais. Não se pode combater o mal com mal, mas com o bem. A melhor arma para combater a palavra dúbia e cinzenta é a palavra bem-intencionada. Jesus, no Sermão do Monte, aconselhou: “Seja, porém, a tua palavra: sim, sim; não, não. O que passar disso vem do maligno” (Mt. 5:37). O conselho de Jesus deveria pautar as relações entre educadores cristãos e seus pares e alunos. No papel de educadores, temos a missão de opor a palavra bela e transparente à mentira e dissimulação.

Embora com frequência seja inevitável conviver com a palavra opaca, não precisamos utilizá-la como arma de defesa, sob o risco de sermos responsabilizados pelos maus resultados que ela provoca.

O livro de Juízes (12:5, 6) relata que nos dias de Jefté, os gileaditas, em guerra contra os efraimitas que fugiam, tomaram a passagem do Jordão que dava acesso à terra de Efraim. Se um fugitivo desejava passar, os gileaditas perguntavam: “És tu efraimita?” Caso a resposta fosse “não”, tinha de pronunciar “xibolete”; como essa pronúncia não era habitual, respondia “sibolete”. Por isso, morreram quarenta e dois mil de Efraim naquela ocasião.

Esta passagem nos ensina que se nos especializarmos em produzir discursos opacos, se cultivarmos o dizer uma coisa para significar outra, se nos acostumarmos aos discursos “siboletes”, quando Nosso Senhor exigir de nós o “xibolete” salvador – a palavra pura -, não a poderemos pronunciar. Os “siboletes” terão feito um estrago irrecuperável em nossa alma. Então, não adiantará dizer “eu não sou de Efraim”, para significar “eu sou de gileade”. As palavras do lado de lá do Jordão serão sinceras como as das crianças, X será X e Y será Y: “sim, sim, não, não; o que passar disso vem do maligno”. Enquanto esse dia não vem, treinemos nosso “xibolete”, permitindo que o poder de Deus atue em nós. Até lá.

 

Joubert Castro Perez é Mestre em Linguística e professor dos cursos de Letras e Tradutor e Intérprete do Unasp.