Mesmo diante do cenário atual de descrédito da classe política brasileira, o assunto deve fazer parte das discussões do ambiente escolar para a construção de cidadãos conscientes do seu papel social.

A cada dois anos, campanhas eleitorais fazem parte da vida do brasileiro. Particularmente para nós, latino-americanos, isso significa muitos panfletos, jingles, horas de propaganda política na televisão e no rádio, sem contar os debates e discussões acaloradas. No Brasil, a votação é de caráter obrigatório para todos entre 18 e 70 anos e facultativa para jovens entre 16 e 17 anos, idosos acima dos 70 anos e analfabetos. Por conta disso, milhões de brasileiros de todos os estados, do Distrito Federal e até mesmo muitos que residem fora do Brasil saem de suas casas, quando se tem um pleito, rumo a uma zona eleitoral para garantir seu voto, que, desde o ano 2000, é computado eletronicamente em uma urna. Trata-se de mais 148 milhões de eleitores, número que cresce a cada eleição.

Contudo, será que esse evento por si só faz da política algo realmente importante para o Brasil, sem falar de outras partes do mundo? Será que a política de fato é importante para o povo em seu cotidiano? Se não houvesse políticos por aqui, viveríamos melhor ou pior? É necessário tantos deles, afinal? Todas essas questões são atualmente muito discutidas, talvez com mais ênfase que no passado, por conta dos atuais acontecimentos que dizem respeito à corrupção. Essa “praga” acaba abalando a imagem do Brasil no exterior e, ainda pior, ao tornar a vida bem mais difícil por conta da inflação, que faz com que o salário perca seu valor, além da insegurança em relação a manutenção do trabalho, sem falar na criminalidade crescente e outros tantos problemas, como ansiedade, estresse, depressão etc.

Você é um político e (talvez) não sabia!

Provavelmente, só pelas linhas acima, o valor da política deve ter ficado muito claro. Custa demais votar de forma inconsciente e inconsequente, imaginando que toda a classe política pouco ou nada vale. A longo prazo, e particularmente no Brasil é possível perceber isso nitidamente, más gestões políticas causam mais danos e mortes diretas e indiretas que certos conflitos armados entre nações. Contudo, algo é certo: todos nós, sem nenhuma exceção, somos políticos!

Ainda que você seja jovem demais para ser votado em um cargo público – é necessário ter 35 anos ou mais para se tornar presidente da república, por exemplo – você é um político. Mesmo que você atualmente não demonstre o menor interesse por nenhuma discussão política nem faça parte de qualquer um dos 35 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), você está dentro do jogo e faz parte do processo.  Afinal, não há neutralidade nesse campo: em uma democracia, manter-se mudo e não opinar pode ter o mesmo peso de um grito.

Essa ideia ou percepção não surgiu da imaginação do autor destas linhas ou de algum pensador contemporâneo. Na verdade, política, substantivo feminino que significa “arte ou ciência de governar” vem sendo praticada há milênios e discutida pelo menos desde Platão, filósofo grego, aluno de Sócrates, e também por Aristóteles, aluno de Platão, pelo menos uns 300 anos antes do nascimento de Cristo.

Quando Aristóteles redigiu sua obra nomeada “Ética a Nicômaco”, deixou muito claro o que é realmente ser político. Disse – e aqui faço uso de suas palavras de forma livre – que o ser humano é um político, enquanto se realiza no âmbito de sua comunidade. Ou seja: nenhuma pessoa pode viver sozinha. Afinal, “ninguém é uma ilha”, como escreveu o poeta inglês John Donne. Assim, o ser humano, ao se relacionar com seu vizinho, professor, amigo, carteiro ou qualquer que seja, exerce uma atividade política fundamental. Quanto mais ele bem se relacionar com o próximo, mais fácil e suave será sua vida na comunidade e mais colegas e amigos terá.

Comunicação e relacionamento com o próximo, sem qualquer tipo de barreira social ou econômica, faz de você um bom político. Por isso, grande estranheza é provocada quando um “político de carreira” (que vê a política como profissão, infelizmente) que pertence à classe alta é visto comendo um pastel na feira precisamente durante dada campanha eleitoral, sendo que nunca antes sequer pisou naquele bairro. Na verdade, sua relação é interesseira e cínica, precisamente o contrário do que deve acontecer. Como esperar que ele faça algo bom por alguém que não conhece e sequer tem interesse em conhecer, exceto de forma artificial e com o único intuito de conseguir alguns votos?

A política, como pensaram os gregos, dá sentido para a vida: no relacionamento com a comunidade há vínculos que se fortalecem e se tornam inquebrantáveis. As pessoas são felizes e se veem úteis quando fazem algo que beneficia sua escola, igreja, casa, creche, asilo ou a comunidade como um todo. Terminam o dia e vão dormir com o senso de dever cumprido.

Foi provavelmente isso que Aristóteles escreveu ao dizer que “o homem verdadeiramente político também goza a reputação de haver estudado a virtude acima de todas as coisas, pois que ele deseja fazer com que os seus concidadãos sejam bons e obedientes às leis”. O que é virtude, dentre muitas possibilidades de significado, senão fazer o bem e propiciar a outros e a si mesmo a felicidade?

De forma genérica, em que momento a política deixou de ser algo relacionado à felicidade para se tornar algo muito mais próximo da corrupção, ao menos no Brasil? Um pequeno olhar histórico aqui se faz importante: somente a partir de 1989 o brasileiro pôde votar para presidente de forma livre e direta pela primeira vez em 29 anos. Fernando Collor de Mello derrotou Luiz Inácio “Lula” da Silva depois de intensos debates e “trocas de farpas”. Em 30 de dezembro de 1992, ele deixou o poder pela porta de trás, acusado de crime de responsabilidade e denúncias graves de corrupção, atingindo a cifra de 1 bilhão de dólares.

Assumiu o vice-presidente, Itamar Franco e logo seu ministro da fazenda, Fernando Henrique Cardoso foi eleito para dois mandatos, seguido por Lula, por mais dois mandatos e Dilma Rousseff, que foi reeleita em 2014 e hoje sucedida por Michel Temer, depois dela sofrer o chamado impeachment, ou impedimento, sob as mais diversas acusações. A história dirá até que ponto as acusações contra ela fizeram sentido no todo ou em parte. Entre 1964 e 1985, houve um regime militar que tentou implodir a democracia no Brasil. Antes de Jânio Quadros, o grande nome foi Juscelino Kubitschek e antes, Getúlio Vargas, que atuou ditatorialmente durante vários anos, até voltar ao poder pelo voto e cometer suicídio em pleno mandato.

Em seu próprio âmbito, acabe você com a corrupção!

Em poucas palavras, a democracia brasileira é ainda jovem, instável e necessita de muito aprendizado. Mas a causa da instabilidade política não é por essa falta de experiência democrática, mas pela corrupção que destrói qualquer possibilidade de transformação e, por isso, deve ser combatida com todas as forças.

Você já parou para pensar que um político não se torna corrupto porque se tornou político (embora tenhamos muitos casos de bons políticos)? A corrupção começa quando uma simples e barata caneta que não pertence a você é levada para sua casa, de forma consciente. A corrupção acontece quando o aluno não faz o trabalho e pede para constar no seu nome, ou quando provas são feitas utilizando materiais não permitidos, a famosa cola.

Os exemplos são muitos e poderiam preencher dezenas de páginas. O que deve ficar claro é que as pequenas corrupções não punidas em seu devido tempo fazem grandes corruptos, que se valem de muito poder para fazer atos ainda piores, como desviar grandes somas de dinheiro público, que direta ou indiretamente, matam muitos e muitos por hospitais que não foram terminados ou estradas que continuam esburacadas. Ou matam sonhos, quando faltam escolas e todo um futuro planejado acaba se frustrando.

Por tudo isso, política é algo muito importante e deve ser tema abordado em casa, em todas as oportunidades possíveis, assim como na escola, tantas vezes quanto necessário, sem contar entre amigos em suas conversas e onde mais for oportuno. É importante acompanhar sempre que possível os debates e campanhas eleitorais, conhecer os candidatos e partidos, saber em quem votar e acompanhar de perto seus candidatos. Contudo, ainda mais importante é ser ético e viver uma vida honesta em todos os sentidos, mesmo quando ninguém está vendo. Uma sociedade ética é uma sociedade feliz e próspera.

Nesse caso, a política passa a ser motivo de orgulho e felicidade. Mas não se pode esperar pelos próprios políticos partidários para isso. Seja você mesmo, ser humano político que é, a transformação necessária para todos aqueles que estão à sua volta.

 

Fábio Augusto Darius é doutor em Teologia Histórica e professor do Unasp