Estar acima do peso na idade escolar gera consequências imediatas e de longo prazo na saúde do estudante.

A obesidade infantil ocorre quando uma criança está acima do peso normal para sua idade e altura, que geralmente é calculado pelo índice de massa corporal (IMC), avaliado por profissionais como médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e os educadores na área da educação física.

Considerada como uma patologia, a obesidade pode ser diagnosticada pelo excesso de gordura corporal através da avaliação das porcentagens das composições corporais (massa óssea, massa muscular e massa gordurosa), sendo dividida em dois grupos: a massa magra, que é livre de gordura e constituída de proteínas, mineral ósseo, água intra e extracelular; já o segundo grupo é entendido como a gordura corpórea. Assim sendo, a análise da avaliação da composição corporal possibilita a compreensão do que ocorre devido as alterações metabólicas e os riscos à saúde.

É consenso que as taxas de obesidade vêm aumentando de forma significativa. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), caso nada seja feito até 2025, a projeção sinaliza que o número de crianças com sobrepeso e obesidade no mundo deve chegar a 75 milhões, sendo considerado um dos problemas de saúde pública mais graves do século 21. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 15% das crianças brasileiras, com idade entre 5 e 9 anos, têm obesidade atualmente. Portanto, já estão expostas aos fatores de riscos que eram apenas evidentes em adultos.

Estudos já identificaram os fatores de riscos em crianças. Embora as doenças cardiovasculares tenham manifestações clínicas na idade adulta, crescem as evidências de que os fatores de risco surgem cada vez mais cedo, podendo ter início na infância e na adolescência, se estendendo em idades posteriores. Já foram realizadas previsões sobre o efeito da obesidade na adolescência e sua contribuição para o aumento substancial da taxa de doença cardíaca coronária entre os futuros adultos. Por exemplo: em 2007, Bibbins-Domingo e outros pesquisadores projetaram mais de 100 mil situações de doença, associadas ao excesso de peso na adolescência, ocorrendo em 2035 nos Estados Unidos.

Há também indicativos de correlações entre a presença da obesidade infantil e alterações nos aspectos sociais, econômicos, psicológicos e físicos. Os dados de estudos realizados revelam que que meninas obesas tem dificuldades na escolarização e relataram insatisfação com sua imagem corporal quando comparadas com as meninas não-obesas. Verificou-se também que pais e professores apresentam mais problemas de relacionamento social e comportamental com crianças de excesso de peso.

O surgimento mais frequente de sentimento de tristeza, irritabilidade e agressividade pode ocorrer também em adolescentes obesos. Muitas vezes, eles sofrem discriminação e exclusão social, recebem apelidos, são importunados e não são aceitos pelos colegas, o que pode impactar sua qualidade de vida atual e futura.

Tudo isso pode trazer-lhes dificuldades futuras como o baixo nível de desenvolvimento motor; a timidez; restrições impostas a si mesmo; dificuldades para ir à escola e participar de reuniões sociais; comprar roupas; e relacionar-se afetivamente. Estudo recente, realizado por Patrícia Zuanetti, aponta que a obesidade pode levar a alterações negativas no desempenho das crianças, como a flexibilidade cognitiva e atenção alternada, que interferem no processamento da linguagem escrita e na habilidade para alternar as rotas de leitura.

Percebe-se que a obesidade infantil pode interferir negativamente em vários aspectos do desenvolvimento da criança e do adolescente, com implicações para a vida adulta. Desse modo, intensifica-se o olhar para a necessidade de intervenções em combate aos fatores que estão fortemente associados a obesidade, como: sedentarismo, dieta inadequada, histórico familiar de obesidade e o fator genético.

O estilo de vida sedentário, e a sua relação com os indicadores de saúde, torna-se ainda mais preocupante, devido à prevalência de comportamentos sedentários perpetuados pelos mais jovens. Isso justifica a elaboração de programas educativos em escolas, de modo a incentivar crianças e adolescentes a encontrarem outras alternativas para não ocuparem o seu tempo livre em atividades como o tempo excessivo em tela, locomoção motorizada e outras atividades realizadas na posição sentada ou deitada.

A dieta inadequada, rica em gorduras, doces, frituras, alimentos industrializados e congelados, em vez de frutas e alimentos naturais, também sugere a intervenção da família e da escola na educação alimentar. Isso exige mudança de hábitos e disponibilidade dos pais diante da conscientização dos danos para a saúde, provocados pela obesidade.

O fator genético também pode contribuir para a obesidade, no entanto, não determina que todo pai obeso terá filhos obesos. Acredita-se que o estilo de vida será decisivo nessa questão. Daí a necessidade de reforçar que é preciso mais investimento da escola em atividade física e no ensino da prática regular. A aula de educação física é um espaço de grande potencial para combater o sedentarismo e, assim, prevenir a obesidade.

Outra medida educativa-preventiva para a aprendizagem de um estilo de vida saudável é a introdução da educação alimentar na escola – principalmente na educação infantil – trabalhando em parceria com a família. A escolarização é uma boa etapa para o desenvolvimento de hábitos saudáveis de alimentação, por ser um período em que se adquirem preferências alimentares. Acredita-se que o tipo de alimentação dos pais contribui para a educação do paladar dos filhos, pois eles aprendem pela imitação. Por isso é importante que a família esteja junta na refeição, cultivando hábitos saudáveis de forma coletiva.

As pesquisas indicam que os comportamentos desenvolvidos durante a infância e a adolescência podem exercer influência na idade adulta. Desse modo, faz-se necessário a prevenção da obesidade infantil guiada pelo princípio de Ellen G. White de que “todos os nossos hábitos, gostos e inclinações devem ser educados em harmonia com as leis da vida e da saúde”.

Adaptado de http://bit.ly/2ouL9ls

 

Heber de Ouro Lopes Silva é educador físico e fisioterapeuta, mestre em Educação Física e professor do Unasp.