Antes de aprender a ler, o aluno deve amar a leitura através da história, contada com maestria pelo professor.

Quando o aluno não descobre a ligação lúdica e prazerosa que a leitura traz, geram-se diversos problemas em sua vida escolar e social. Ele deixa de vivenciar várias experiências, de refletir e desenvolver uma leitura do mundo, deixando de ser um indivíduo crítico da realidade. Muitas vezes, o papel do professor dificulta o desenvolvimento do hábito de ler, ele que deveria ser o maior mediador para transformar o ato da leitura num momento prazeroso. Consequentemente, ler tomou uma forma mecânica e apressada, de modo a privar o aluno de ter um contato com o universo das palavras, das descobertas e das novas experiências.

Segundo a pesquisadora Danielle Brito, a leitura de obras literárias voltadas para o público infantil desenvolve uma enorme capacidade de criar conhecimentos e promove uma nova visão de mundo. Isso porque o ato de ler textos literários não é um aprendizado qualquer, é uma leitura da sua arte, do simbólico, do subjetivo, para situá-lo e questioná-lo.

Este diálogo com o texto permite a conquista de uma identidade leitora, de uma autonomia para decifrar e ponderar o mundo. Segundo Sarah McCarthey, o contato das crianças com o texto é reconhecido hoje como um dos maiores elementos para o sucesso escolar e para a formação do indivíduo. Portanto, cabe ao professor prover-se de algumas estratégias para trabalhar o letramento literário de forma a estimular o aluno para o universo dos livros. Neste artigo, apresentaremos sugestões da professora Denise de Oliveira acerca de um trabalho mais sistemático de motivação do hábito de ler.

Primeiramente, a leitura literária com os alunos é muito mais do que simplesmente ler, é uma arte e deve ser apresentada assim. Ela tem um tipo de escrita que valoriza a estética, devido a linguagem e aspectos específicos do texto. Tratar a obra literária como arte significa dar vida ao texto, o que vai além de simplesmente lê-lo como uma leitura normal. Exige identificar os aspectos da entonação, da expressão e do tom de voz. O professor precisa de treino e preparo, de um incremento no trabalho pedagógico para apresentar a literatura.

Quanto maior a intencionalidade do professor em “didatizar” e estar sensível à construção do texto, maior a relação afetiva do aluno com o livro. A leitura deverá apresentar as nuanças do texto de forma lúdica, que pareça uma brincadeira. Esse processo de estímulo à leitura de um texto deve seguir uma sequência de motivação que chame a atenção do leitor.

Para criar um ambiente atrativo, a professora Denise recomenda começar um diálogo com as crianças sobre o tema do texto. Quem sabe uma roda de conversa, apresentando figuras que explorem o que os alunos já sabem. Ou uma caixa de surpresa, onde pergunta-se o que tem dentro e sobre o que vai se falar ao apresentar o livro. Esse trabalho de exploração do contexto e tema do livro é fundamental, pois desperta o conhecimento prévio do aluno, associando-o com o que será apresentado.

Em seguida, vem o momento de apresentação do livro. Na segunda fase, apresentamos o livro físico, analisando quem é o autor, o ilustrador e a editora. Muitas vezes os títulos são bem sugestivos e criativos, e servem para evocar a curiosidade no aluno com relação ao que vai acontecer. Esse despertar o universo do aluno permite que ele imprima seus sentidos ao texto na medida em que estabelecemos um diálogo entre o que sabemos e o que o texto trará de novo. Nos dois momentos, de ambientação e apresentação do tema, o professor desenvolve o aspecto motivacional do aluno, despertando seu gosto pelo tema e história.

Já em um terceiro momento, o foco está na leitura propriamente dita. Nesse caso, o professor incorpora os personagens, exigindo treino para que a história traga a verdadeira oralidade e vida do texto. O professor pode valer-se de uma leitura em frente ao espelho, praticando para apresentá-la como arte. É importante durante a apresentação do texto fazer pequenas paradas, pausas acompanhadas de perguntas que despertem a atenção e a curiosidade do aluno. Após a leitura do texto, dê asas à imaginação e inicie a análise e interpretação.

Obviamente, cada aluno possui uma vivência própria do cotidiano, o que torna a leitura única, esse é o momento de explorar experiências. Trazemos à tona também o que aconteceu no texto que se relaciona com a vida dos pequenos. Ajudamos a julgar e entender, não só o mundo da leitura, mas a sociedade que nos cerca. Como Paulo Freire afirma, “ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo; os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”. A experiência individual do aluno deve ser trazida para a leitura do texto, pois as vivências oriundas do social são responsáveis pelo sentido do texto.

Depois que o aluno passa a entender melhor o seu universo e o do texto, vem a parte de decifrar o aspecto linguístico. Nesse momento, explore questões ortográficas e de estrutura textual, onde os gêneros textuais devem ser destacados. Todo esse processo de motivação e exploração do texto promovem o desenvolvimento da escrita do aluno. O trabalho de enriquecimento da leitura oferece recursos e ideias para a produção textual. Ao final de cada texto, o aluno não só desenvolve sua capacidade verbal, mas também articula novas ideias e experiências, que são exploradas no momento da escrita. Segundo o escritor James Zull, considerando a forma como o cérebro processa o aprendizado, há sempre a necessidade do elemento motor para assimilar o conhecimento, e a escrita fornece este elemento para a aprendizagem.

O professor no processo de escrita poderá explorar os diferentes gêneros de texto com os alunos, ajudando-os a escrever trava-línguas, poesias, narrativas etc. Os alunos podem escrever seu próprio livro, criando narrativas de forma a entrarem em contato com as diferentes estruturas textuais. O mercado de obras literárias voltada para crianças tem crescido exponencialmente, por isso, cabe ao professor explorar essa diversidade de recursos. Aliás, atualmente, temos a possibilidade de associação do letramento literário com o letramento musical, onde o texto é apresentado em forma de música.

Esse trabalho mais sistemático, sugerido pela professora Denise, foca no nível sensorial, emocional e racional, levando o aluno a se engajar na leitura por meio da escrita, do som, da oralidade e da arte. Assim, o aluno construirá uma ligação lúdica entre o mundo da imaginação e dos símbolos, criando um palco de possibilidades de expressão.

 

Ellen Rodrigues é doutora em Educação e professora do Unasp.