O primeiro editor relembra os primórdios e defende os objetivos da revista Escola Adventista.

A sensibilidade de dois professores despertou a necessidade de uma revista para educadores adventistas. Renato Stencel não só pensou, mas embarcou na ideia, guiando-a por sete – bons, desafiadores e incansáveis – anos. Pastor e pedagogo, Renato é mestre em Educação pela Andrews University. O doutorado veio anos depois, também em Educação, pela Universidade Metodista de Piracicaba.  Atualmente, dirigindo o Centro de Pesquisas Ellen G. White Brasil, não se distanciou muito da educação. Dedica-se à pesquisa, ensino e preservação da memória adventista através dos escritos da profetiza que, dentre inúmeros assuntos, também deixou conselhos pontuais e práticos para a área educacional. Em entrevista à Escola Adventista, Stencel se recorda com carinho daqueles tempos em que a tecnologia disponível era pouca, mas a vontade de disseminar os princípios e valores da educação cristã era imensurável.

 

Revista Escola Adventista_De quem partiu a ideia e o desejo de desenvolver esse periódico para a educação adventista e por quê?

Renato Stencel_Desde que abriu o primeiro curso oficial de nível superior, a igreja adventista veio crescendo dentro de um perfil acadêmico. Isso fez com que pessoas percebessem a necessidade de se criar um periódico, o que aconteceu logo no início dos anos 90. Até existiu uma imprensa universitária, porém publicava apenas materiais voltados para a área teológica. Foi com a vinda dos cursos de ciências humanas do Unasp Campus São Paulo para Engenheiro Coelho que ressurge o desejo.

No ano de 1997 participei do 1º Congresso Ibero-americano de Educação Adventista. No local, todas as universidades representadas prepararam um estande, onde, além de outras coisas, expuseram suas produções, seus livros e revistas. Nos sentimos envergonhados, pois não tínhamos nada para apresentar. Foi então que eu e o professor Renato Gross, ali mesmo, sonhamos em desenvolver uma revista. A ideia de um periódico para a faculdade de educação foi apresentada na primeira reunião entre os professores e o projeto foi muito apoiado. Então eu peguei o projeto e pedi sabedoria a Deus para trabalhar em algo ainda sem estrutura alguma, mas que era uma ideia pioneira. Já o nome foi sugerido pelo pastor Edilson Valiante, o que foi uma ótima sugestão visto o público alvo.

 

REA_ Quais eram os desafios de 1997 que hoje não existiriam na hora de desenvolver uma revista impressa?

Stencel_Claro que na época, há 20 anos, já existiam computadores, mas eram poucos e ficavam apenas no departamento de Tecnologia da Informação da instituição. Tudo tinha de acontecer fora do Unasp, pois não tínhamos uma estrutura adequada. Na União Central Brasileira havia um departamento de diagramação e foi lá que estruturamos visualmente a primeira revista. Eu sentava ao lado do programador visual, dizia exatamente as ideias e como seria a disposição dos elementos. Com os programas da época, Page Maker e Corel Draw, montamos, com muito sufoco, o primeiro exemplar.

 

REA_Como funcionava a logística de produção de conteúdo na época?

Stencel_Quando o projeto foi lançado, propusemos para alguns professores a responsabilidade de escreverem artigos para a revista. Então essas pessoas começaram a se mexer e eu lembro que não foi muito fácil reunir esse material. Mas, graças a Deus, conseguimos. Nós não estabelecíamos pautas, mas cada educador escrevia algo na sua área de atuação. No primeiro exemplar tivemos artigos na área de educação física com o professor Eduardo, a professora Denise escreveu sobre alfabetização, e assim foi.

O artigo de capa foi escrito pelo professor Renato Gross, onde usou seu espaço para falar da “escola do futuro”. Tínhamos uma estante pedagógica, com sugestões de livros para os docentes, e, ao fim do periódico, um espaço dedicado para a publicação de artigos na área educacional. Porém, nossa prioridade era tornar a revista um veículo para a manutenção da filosofia adventista, para que ela não se perdesse dentro das escolas. Hoje, isso pode acontecer muito facilmente, as coisas secularizam-se rapidamente e a escola se torna como outra qualquer. Por isso, separamos espaços filosóficos para reafirmar nossos objetivos.

 

REA_O quão importante foi o tema “educação” para a escritora Ellen G. White?

Stencel_Se você analisar dentro do contexto visionário, de visões, Ellen G. White recebeu sua primeira visão sobre educação em 1872, ou seja, 28 anos depois do grande desapontamento. Perceba que ela recebeu várias visões sobre inúmeros aspectos antes de falar sobre educação. Isso levanta algumas coisas interessantes do ponto de vista histórico para nós. Por quê? O plano de Deus não era que a gente ficasse muito tempo aqui na terra depois do desapontamento e, por várias vezes, Deus revelou que Jesus já era para ter voltado.

É bem possível que essa tardança na condução do elemento visionário pra Ellen G. White sobre educação se explique por esse motivo, pois o foco da igreja era pregar a volta de Jesus. Foi quando a igreja começou a crescer e ver que a missão dela era muito maior do que se imaginava, viu-se a necessidade e a importância da educação no processo todo. Deus começou a dar orientações e a primeira visão foi em 1872, que ficou conhecida como “A devida educação”. Esta visão foi publicada no livro Conselhos sobre Educação e são as primeiras orientações que Deus deu para ela sobre educação. Ellen G. White deu toda a importância à educação nos seus escritos a ponto de termos hoje cinco exemplares orientando as escolas e a liderança da igreja. Sem a educação, jamais a igreja seria o que é.

 

REA_O seu doutorado resgatou a história da educação superior adventista do Brasil. De que forma a área foi importante para a expansão da igreja?

Stencel_O meu doutorado estudou o ensino superior no Brasil, mas eu falo disso no primeiro e segundo capítulos. Se você falar de educação no contexto de Ellen G. White, essa área foi o elemento chave nos seus escritos, pois a igreja pôde chegar ao que é graças ao processo da educação e formação dos seus obreiros e servidores. A educação adventista foi estratégica. Ela foi uma ferramenta usada por Deus para a origem do sistema estrutural da igreja, o seu desenvolvimento e a sua consolidação.

A igreja não seria o que é se não fosse pela educação. Então, hoje, você tem pastores que exercem funções de liderança na igreja porque uma vez já foram alunos de um internato, onde aprenderam com seus professores o que é a vida, o que são as letras, o que é o grego e o hebraico, o que é fazer um negócio, o que é ser um advogado, o que é ser um jornalista, o que é ser um administrador, o que é um professor. Neste assunto, há alguns aspectos que devemos refletir: como estamos praticando essa educação? Até que ponto a educação está cumprindo a necessidade de formar pessoas para o cumprimento da missão da igreja? Porque esse é o principal objetivo da educação adventista e esse é objetivo desta revista que você lê. Preservar os princípios e valores da educação pelos quais essa igreja foi fundada.

 

REA_Após 20 anos, por que ainda é importante a publicação da revista Escola Adventista?

Stencel_É importante para preservar os princípios como também para manter os princípios alinhados, ou seja, manter a igreja dentro de um alinhamento filosófico em que todos nós estejamos andando para uma mesma direção com intuito de chegarmos a um mesmo local. Se nós não tivermos essa visão de princípios de valores, que são mantidos pela palavra de Deus, a Bíblia, e consubstanciados pelo Espírito de Profecia, nós vamos perder nossa essência e vamos nos tornar como as escolas do mundo.

Por muitas vezes, algumas escolas adventistas exibem grandes fachadas com a identidade da rede, mas as práticas filosóficas e os valores que defendem lá dentro da instituição não tem nada a ver com o nome que lá fora está. Se nós, educadores, não percebermos isso e não nos ativermos a isso, vamos nos tornar uma bonita fachada, mas de conteúdo podre. Devemos nos reportar à Bíblia, a palavra de Deus, que é base de todas as coisas. Eu espero que esse periódico seja uma benção para a igreja e para as escolas, e que ele ainda esteja exercendo o seu propósito pelo qual foi fundado: preservar os princípios e valores dentro das instituições. Caso contrário, não há necessidade da sua existência.

 

Mauren Fernandes é jornalista e editora adjunta da REA.