Os desafios do crescimento sustentável no contexto econômico atual e o papel da escola atuando nesse cenário.

A trajetória marcada por uma militância e forte atuação em questões ambientais concedeu a Marina Silva diversas conquistas, reconhecimentos e funções públicas de relevância para continuar batalhando em favor dos seus ideais. De família humilde do Acre, teve na educação o maior alicerce para a construção de sua carreira política (foi deputada estadual, senadora da República, ministra do Meio Ambiente e terceira candidata mais votada nas eleições presidenciais de 2010 e 2014). A relevância de suas ações voltadas à proteção do meio ambiente foi reconhecida em 2007 pela ONU, quando a instituição lhe concedeu o “Campeões do Mundo”, maior prêmio da organização para a área ambiental. Em 2014, o Financial Times a mencionou como a mulher do ano e a personalidade mais influente do período. Analisando o cenário atual e os problemas socioeconômicos que rondam os conceitos de sustentabilidade, Marina conversou com a Revista Escola Adventista e esclareceu alguns dos grandes dilemas que o mundo precisa enfrentar na atualidade e qual a participação da escola nesses debates.

 

Revista Escola Adventista_A maior parte dos países que hoje são considerados “desenvolvidos” experimentou um crescimento econômico baseado na industrialização. A revolução industrial, vivenciada por nações europeias e Estados Unidos no século 19, não considerava as diversas consequências causadas ao meio ambiente pela emissão de “gases estufa”, efeitos que contribuíram muito para o cenário alarmante traçado por cientistas e estudiosos do clima na atualidade. Esse é o inevitável preço do desenvolvimento?

Marina Silva_Infelizmente, as gerações que nos antecederam e que ergueram os pilares da civilização industrializada que somos atualmente estavam orientados por diversos paradigmas equivocados. Um deles era o da infinidade dos recursos naturais. Acreditava-se que a natureza tinha uma capacidade ilimitada de fornecer insumos para a produção e consumo humanos e que tinha também uma capacidade ilimitada de absorver os rejeitos criados por esse mesmo padrão de produção e consumo. No entanto, essa história começa a mudar de modo significativo em meados da década de 1980, quando a ONU cria a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, sob a chefia da primeira-ministra da Noruega, Gro Harlen Brundtland. A comissão produziu o relatório Nosso futuro comum, que mostrava claramente a insustentabilidade do modelo de desenvolvimento predominante e abriu as portas para as crescentes mobilizações políticas, científicas e sociais que culminaram com conquistas importantes tanto na esfera multilateral, envolvendo os governos das nações, como em uma grande multiplicidade de iniciativas da sociedade na direção do modelo do desenvolvimento sustentável.

 

REA_Esse “fenômeno” desenvolvimentista experimentado pelas nações do Hemisfério Norte foi intensificado tardiamente nos países mais pobres, que constataram também a necessidade de industrialização para fomentar o seu crescimento. Mas isso ocorreu em um contexto onde pesquisas já começavam a apontar os problemas que esse modelo econômico pode causar e os “emergentes” precisaram se preocupar em crescer causando menos impactos ambientais, o que, muitas vezes, gera um custo maior. É justo para os países em desenvolvimento enfrentarem esse “problema” (que os desenvolvidos não tiveram para chegar ao patamar econômico e social atual) para tentar melhorar o padrão de vida da sua população?

Marina_A humanidade vive de aprendizagens cumulativas. É assim na ciência, nas relações sociais e deve ser assim também no que concerne à concepção de desenvolvimento. Hoje, está inequivocamente fundamentado, tanto por meios científicos, como empíricos, de que não se pode continuar aumentando a concentração de gases do efeito estufa porque está cabalmente comprovado que redunda em aumento da temperatura média da terra, cujas consequências nefastas atingem a todos, em todos os continentes e as próximas gerações, tendo, como sempre, os piores efeitos sobre as populações mais pobres e vulneráveis. O cardápio de tragédias vai desde aumento da frequência e intensidade dos desastres climáticos, como secas, cheias, calor ou frio extremos, a desertificação, perda de biodiversidade, expansão de doenças infectocontagiosas, sérios impactos na produção de alimentos e na segurança alimentar da humanidade.

Outro exemplo vem dos efeitos ambientais do modelo atual de produção agrícola que se baseia, em muitas regiões, na combinação de agricultura e pecuária extensiva, produção de monoculturas, uso intenso de fertilizantes e agrotóxicos. Só no Brasil estima-se que existam cerca de 70 milhões de hectares de terras degradadas e inúmeros rios, nascentes e áreas de recarga hídrica se encontram contaminados por excesso de fertilizantes e agrotóxicos, sem falar nas preocupantes estatísticas de contaminação humana. Por fim, vale lembrar que atualmente perdemos mil vezes mais elementos de nossa biodiversidade do que há 100 anos, como resultado do desmatamento de florestas e da destruição de habitats cruciais para a reprodução e manutenção das espécies, como é o caso dos manguezais e recifes de corais, por exemplo.

Mudar o modelo de desenvolvimento não se trata de uma imposição feita por nenhuma potência externa, mas sim, uma necessidade urgente de toda e qualquer nação do mundo e quanto mais pobre e limitada em recursos naturais for essa nação, mais urgente e necessária essa mudança, porque ela não pode correr o risco de repetir os mesmos erros dos antepassados ou das outras nações. E quanto mais rica em recursos naturais for uma nação, como é nosso caso, maior ainda nossa responsabilidade para fazer com que todo esse patrimônio natural sirva para melhorar a qualidade de vida da população não só hoje, mas, sustentavelmente, pelas próximas gerações.

 

REA_Dados divulgados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) apontam um futuro extremamente catastrófico, se continuarmos nesse ritmo de emissão de poluentes. Os pesquisadores estimaram uma elevação de até 5ºC na temperatura média do planeta, desencadeando uma série de desastres naturais. O que é preciso fazer para tentar amenizar os estragos e, ao mesmo tempo, estimular o crescimento para beneficiar mais pessoas, principalmente em realidades subdesenvolvidas?

Marina_Todos os países precisam firmar um pacto na sociedade sobre a urgência de adotar medidas que iniciem uma inflexão no modelo de desenvolvimento atual em direção a uma economia com baixa emissão de gás carbônico. No caso do Brasil, por exemplo, nossas principais fontes de emissões são o desmatamento, a agropecuária, a geração de energia, o transporte e a produção industrial. Precisamos adotar medidas que reduzam substancialmente essas emissões: pôr um fim ao desmatamento de florestas nativas, incentivar a adoção das tecnologias de produção agrícola e pecuária sustentáveis, ampliar a produção de energia de fontes renováveis – como a solar, eólica e de biomassa -, incentivar a expansão do transporte coletivo de qualidade e reduzir as emissões de fontes industriais.

É importante notar que todas essas mudanças implicam em enorme incentivo ao crescimento econômico, mas um crescimento saudável, com novos empreendimentos que demandarão mão de obra especializada, investimentos em tecnologia e aquisição de insumos. É um erro pensar que somente as atividades econômicas tradicionais podem gerar atividade econômica. A China, Alemanha, Estados Unidos e França estão dando fortes impulsos em suas economias, fazendo justamente apostas nas energias renováveis.

 

REA_Para muitos, a ideia de um desenvolvimento sustentável é algo utópico, pois as grandes corporações do mundo sempre darão um jeito de burlar a legislação ambiental, em função de uma maior lucratividade (como aconteceu recentemente com grandes empresas automobilísticas do mundo, uma alemã e outra japonesa). Na sua opinião, como ideias sustentáveis devem ser aplicadas em sociedades capitalistas?

Marina_Infelizmente, tanto a experiência capitalista quanto a socialista não produziram resultados positivos no que se refere à conservação dos recursos naturais e à qualidade ambiental do planeta. Penso que a esperança está no poder das democracias. Sociedades democráticas, onde o cidadão tenha direito e acesso à educação e à informação de qualidade, induzirão mudanças significativas não só no comportamento das empresas, mas dos governos, da classe política e nos próprios cidadãos. A sustentabilidade não é uma forma de fazer as coisas, é uma forma de ser, um ideal de vida. A mudança de modelo de desenvolvimento não virá por uma imposição, mas pela tomada de posição frente ao quadro inequívoco de desastres naturais, destruição do planeta e sofrimento humano, que só aumenta a cada ano.

Mais cedo ou mais tarde, cada vez mais pessoas abandonarão esse falso dilema criado entre economia e ecologia e entenderão que sem um não há o outro. Sem uma sociedade que viva com dignidade não se pode conservar riquezas naturais, mas sem usar com sabedoria e limites os recursos naturais não se pode sustentar uma economia sólida por muito tempo. Veja, por exemplo, o Brasil. A potência agrícola que somos depende em boa parte do insumo água que é produzido pela Amazônia que, sozinha, lança por dia cerca de 20 bilhões de toneladas de vapor de água para a atmosfera que se convertem em chuvas nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Continuar o processo de destruição da Amazônia implica afetar os reservatórios das hidrelétricas e as lavouras nessas regiões.

 

REA_Dentre as grandes barreiras do desenvolvimento brasileiro apontadas por empresários estão as leis ambientais. Elas embargam obras, atrasam projetos e limitam a ação da iniciativa privada. A sugestão de diversos setores da sociedade é a de que algumas regras sejam flexibilizadas e, com a recessão econômica, esse pensamento engrossou o discurso nesse sentido. No contexto atual, quais as chances de projetos do tipo serem levados adiante em instâncias legislativas e executivas?

Marina_É verdade que existe necessidade de aperfeiçoamentos no sistema de licenciamento ambiental e de fortalecimento nos órgãos que fazem esse licenciamento que, em muitos casos, são sucateados e extremamente mal contemplados pelos governos. Agora, é importante notar que a absurda quantidade de obras chamadas de elefantes brancos, espalhadas por todo o país, e os absurdos escândalos de corrupção envolvendo obras públicas em todas as esferas da federação, como o caso de Belo Monte, que desviou R$ 150 milhões para as campanhas de partidos políticos, mostram que o problema das obras não é a questão ambiental. Nosso problema principal é de ética e de impunidade.

Quando as empresas de maior porte do país, como as empreiteiras, em conluio com políticos e agentes públicos, estabelecem os portfólios de obras dos governos e as executam sem sentido público, como pensar que eles queiram respeitar direitos difusos de uma população, quando não se importam sequer com o elementar respeito aos contratos e às leis do uso dos recursos públicos? Acho que a operação Lava-Jato e a derrocada do império da corrupção no Brasil devem nos ajudar também a rever os conceitos e preconceitos que esse mesmo pessoal usou durante todos esses anos para esconder sua irresponsabilidade e falta de senso público atrás da questão ambiental. Defender e cuidar do meio ambiente não causa prejuízo a ninguém. Pelo contrário, produz lucros duradouros para empresas e para a sociedade como um todo.

 

REA_Qual a função da escola na formação de cidadãos conscientes do seu papel social em questões de desenvolvimento sustentável, em um contexto onde importantes líderes mundiais disseminam a ideia de que os problemas ambientais são criações científicas e políticas para frear o crescimento econômico dos países?

Marina_A busca pelo conhecimento não pode abrir mão dos desafios da experiência humana no seu devido tempo histórico. A sustentabilidade é, sem sombra de dúvida, o maior desafio contemporâneo que a espécie humana tem pela frente. As condições de sustentação da vida no planeta estão sendo deterioradas em uma velocidade sem precedentes. E a escola, por ser o lugar do despertar das consciências e das múltiplas aprendizagens mediada pela socialização, tem um papel chave a cumprir nesse processo de educação para a sustentabilidade. É no ventre desse espaço educador que uma visão sistêmica sobre a interdependência entre as pessoas e o ambiente, e também generosa com o bem-estar das próximas gerações, pode ser aprendida e colocada em prática.

Mas, para isso, é preciso que a escola esteja orientada e conectada com a realidade do seu entorno e com os desafios do tempo que estamos vivendo. Só assim seguirá na sua tarefa educadora maior como guardiã de um futuro que ainda precisa ser construído.  As críticas contra os defensores do desenvolvimento sustentável de criar entraves ao crescimento econômico de um país têm na sua raiz um problema de origem. A incapacidade dos acusadores de perceber que a dimensão da crise que estamos vivendo não é apenas econômica, mas política, ambiental, cultural, social e sobretudo de valores. Portanto, a ficção está nesse olhar condicionado exclusivamente por um viés econômico incapaz de escutar uma realidade complexa que já opera em outra linguagem.

 

Thiago Basílio é jornalista, mestre em Divulgação Científica e Cultural, editor-chefe da REA e professor do Unasp.