O reflexo negativo da ausência do ensino fundamental 2 nas discussões educacionais.

Um novo ano escolar começa. Uma nova etapa inicia, a famosa fase das mudanças chega. Por volta dos onze anos o estudante muda o nível do ensino e passa para o ensino fundamental 2. Nessa etapa, o estudante formula hipóteses sobre os fatos sociais, associa-os à realidade e tem capacidade para referenciá-los com as disciplinas estudadas em sala de aula.

Ao entrar neste novo nível escolar, o aluno precisará desenvolver habilidades de adaptação, pois no primeiro dia de aula já percebe que haverá um professor para cada disciplina, diferente do nível 1, onde somente havia um professor durante a aula.

Ao deixar de receber orientações e ensinos de uma única pessoa, e começar a tê-las por diferentes professores diferentes, o aluno do ensino fundamental de nível 2 começa a se tornar mais independente.

 

O Ensino Fundamental Nível 2 no Brasil

O ensino fundamental contempla nove anos de estudo, é obrigatório e dividido em duas etapas, sendo elas: ensino fundamental 1 e ensino fundamental 2. Percebe-se que atualmente tem-se voltado muito a atenção para os primeiros anos do ensino fundamental, bem como para o ensino médio através de políticas e programas educacionais. Porém, ao se falar no ensino fundamental 2 (os últimos 4 anos), nota-se um certo esquecimento.

Esse esquecimento, comenta a pedagoga Luciane Hees, acarreta em evasão significativa neste segmento. Para a doutora em Psicologia da Educação, as preocupações das pesquisas acadêmicas não permeiam essa área e “as políticas públicas não apontam propostas específicas para essa etapa, apenas para as séries iniciais e ensino médio, como se o fundamental nível 2 estivesse garantido nessa transição e é exatamente aí que ele se perde”, comenta.

Um dos aspectos que pode revelar indícios desse esquecimento é o fato de não existirem políticas de formação docente para o ensino fundamental 2. Luciane, que também atua como formadora de professores, acrescenta que dificilmente uma pessoa afirma que quer ser professor. “Muito provavelmente está ali por algumas circunstâncias da vida”, relata embasada em pesquisas realizadas em escolas.

A maioria dos debates educacionais não focam o ensino fundamental 2. Um erro perigoso, já que é uma fase onde os alunos estão enfrentando um período de transição.

Como já mencionado, não há mais uma professora específica acompanhando o desenvolvimento, os pais (em sua maioria) diminuem o acompanhamento e os professores entram e saem da sala preocupados em passar o conteúdo. A criança se perde nessa mudança escolar agregada a todas as mudanças físicas, psicológicas e sociais que essa idade enfrenta.

Alunos que se sentem atrasados e com dificuldades acadêmicas, muitas vezes abandonam a escola exatamente nesta fase. “Essa preocupação já fez parte da minha prática na época em que atuei como diretora em uma escola e muito me chamou a atenção a evasão que havia no ensino fundamental nível 2”, comenta Luciane Hees.

Nessa etapa, o aluno deve fortalecer a leitura, a escrita, o manuseio dos números, adquirir autonomia e conhecimentos mais amplos que irão permitir uma inserção na sociedade e uma independência nos aspectos de aquisição de conhecimentos. É um momento para orientar o desenvolvimento de competências e o descobrimento de habilidades pessoais. A falta de entendimento do que fazer nessa etapa escolar tem prejudicado a elaboração de um currículo significativo, com um objetivo claro.

Pensando na fase do desenvolvimento que os adolescentes estão passando, Luciane aponta que precisamos de Políticas Públicas específicas para o Ensino Fundamental 2 e para formação docente deste segmento. Muitas coisas podem ser feitas: primeiramente, a elaboração de um currículo significativo e que atenda às necessidades dessa faixa etária; introduzir as Tecnologia de Comunicação e Informação (TCI) nas práticas docentes; programas de motivação para os docentes; além de repensar o currículo. O ensino fundamental nível 2 precisa estar nas discussões educacionais para que, assim, o aluno dessa etapa se torne um estudante mais independente, seguro e com capacidade de enfrentar os desafios, tanto sociais como acadêmicos.

 

TOP 20 Características do aluno do ensino fundamental nível II

1.Age com rebeldia diante de ordens;

2.Apresenta maior ansiedade e indecisão;

3.Desenvolve curiosidade por aprender coisas novas;

4.Possui insegurança em si mesmo;

5.Gosta de participar de um grupo;

6.Exclui quem não é do grupo;

7.É leal e devoto ao grupo;

8.Possui desenvolvimento rápido e irregular;

9.Apresenta comportamento “desajeitado” devido ao rápido crescimento;

10.Mostra instabilidade e contradição nas decisões;

11.Dispõe desenvolvimento mental mais rápido e irregular;

12.Exagera nos problemas;

13.Anseia por independência;

14.Esboça maior tendência para agressividade;

15.É sensível e reservado;

16.Demonstra sinceridade no que pensa;

17.Busca ter boas referências para a vida;

18.Mantém relações desconcertantes com o próximo (em um momento ama, no outro odeia);

19.Aumenta o interesse pelo sexo oposto;

20.Sente necessidade de compreender seu próprio comportamento.

 

Raquel Pierini é mestre em Educação e professora do curso de pedagogia do Unasp-EC.