Saiba como enfrentar a instabilidade econômica com uma gestão escolar equilibrada e visionária

Imagine: João e Helena têm empregos fixos, salários satisfatórios, um estilo de vida confortável, casa alugada, planos de saúde e dois filhos – Marcos e Júlia – matriculados em uma escola adventista da região. O dinheiro deles é “contado”, mas, devido ao bom planejamento feito pelo casal, cobre todas as despesas. De vez em quando, ainda sobra. Uma família ótima, certo?

Em geral, era essa a realidade da classe média brasileira. No entanto, com o aprofundamento de uma crise econômica, muitos não têm mais a certeza de um emprego, e, consequentemente, o salário no fim do mês. Para a família “imaginária” descrita acima, os problemas não seriam mais os clássicos “em que lugar vamos passar as férias?” ou “vale a pena trocar de televisão?”. O dinheiro que cai na conta não é suficiente para manter o mesmo estilo de vida confortável. O impacto é sentido até em serviços básicos.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar relata que, no primeiro semestre de 2016, os planos de saúde perderam 910 mil clientes. E, se “saúde é o que interessa; o resto, não tem pressa”, fica claro que os gastos com educação particular serão jogados à escanteio. Em pesquisa, a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen) aponta que, só em 2015, 12% dos alunos em instituições privadas migraram para a rede pública de ensino. Nesse cenário, João e Helena abririam mão tanto dos planos de saúde quanto das mensalidades pagas para a escola adventista, que Marcos e Júlia tanto gostam. Eles esperneiam, mas não há outra opção: devem começar a frequentar a escola pública mais próxima.

Diante desse tipo de cenário, como um administrador escolar da Rede Adventista deve proceder? A especialista em gestão educacional Sônia Simões Colombo acredita que a prioridade deve ser a otimização de recursos preexistentes. “Quando não estamos em crise, ocorrem desperdícios, tanto em relação ao acúmulo de funções quanto aos recursos financeiros. Para não perder capital, o gestor deve ter um controle muito grande sobre esses recursos”, afirma. Para exercer esse controle de maneira equilibrada, ela recomenda que os administradores da escola estejam envolvidos de maneira intensa em seu planejamento educacional e financeiro.

Na falta de coesão entre o pensamento do administrador e os planos da escola, mora o perigo: a possibilidade de perder a influência perante o corpo docente é grande, o que pode levar à queda na qualidade do ensino oferecido. Tão importantes quanto as implicações em relação ao capital humano são as financeiras: a falta de qualificação ou performance não satisfatória de professores potencializam o desinteresse na educação adventista, principalmente durante uma crise financeira.

Sônia também crê que períodos financeiramente turbulentos não devem servir de desculpa para quedas na excelência pedagógica. “Crises passam, e se a escola tirar a atenção da qualidade de ensino, a integridade da instituição será comprometida. Deslizes não podem ser permitidos”, reforça.

Vitor Henrique Paro, doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), acredita que a qualidade de ensino é algo de difícil mensuração. Ele sublinha que instituições educacionais são um dos únicos produtos que não possuem padrões de qualidade bem definidos, já que seus efeitos ao indivíduo que delas participa são de longo prazo. Isso vai na contramão de outros bens e serviços que têm suas vantagens e desvantagens identificadas em um ponto específico no tempo e no espaço. Em artigo publicado no livro A escola cidadã no contexto da globalização, ele dá uma dica crucial para o bom desempenho, tanto financeiro quanto educacional de uma instituição: “a garantia de um bom produto só se pode dar garantindo-se o bom processo”. O educador também reforça que tal processo só pode ser efetivo caso o diretor saiba promover a mediação entre as áreas pedagógica e administrativa. Em suma: todas as frentes de trabalho reunidas devem estar em constante “conversa”, promovida pelo administrador, que deve valorizá-las igualmente.

As escolas da União Centro-Oeste Brasileira (Ucob) apresentam um caso de sucesso em meio à tormenta financeira. O crescimento no número de matrículas foi de 5,2% (apenas em 2016). Esse aumento na procura pela rede adventista está na contramão das estatísticas brasileiras sobre desempenho das instituições particulares de ensino. O  departamental de Educação da Ucob, Pedro Renato Frozza, e o tesoureiro da mesma instituição, Jairo dos Anjos,  asseguram que um bom planejamento é essencial para resultados positivos: “Já vínhamos nos preparando para este momento [de crise] com um modelo de gestão que fortalecesse os principais alicerces de uma instituição: foco nos clientes, prestação de bons serviços, filosofia definida e compreendida por toda a comunidade escolar, boa estrutura física, confiança no negócio e conhecimento do mercado em que atuamos.”

O crescimento da rede adventista na Ucob não veio de surpresa para os administradores. Há 10 anos, um fundo de investimento para fomentar o crescimento do departamento educacional foi criado. Tal projeto viabilizou a ampliação e modernização de 34 unidades escolares. “Destacamos a criação de um plano de carreira a nível de união, elevando o nível pedagógico, valorizando o professor e potencializando a formação de liderança e o fortalecimento da filosofia adventista em nossas escolas. Essas ações somadas elevaram o número de 11 mil para 23,6 mil alunos nesse período”, acrescentam os administradores.

Esse caso de sucesso demonstra que, além de se preocupar com a qualidade da educação oferecida e os lucros que a escola traz, o administrador escolar deve se manter focado na filosofia da instituição que representa. Toda escola tem valores, um código de conduta – algo que, para Sônia Colombo, é essencial para sua sobrevivência e crescimento. “É importante inserir crenças na linha pedagógica e elas devem permear todo o planejamento escolar”, reforça. No caso das escolas adventistas, essas crenças já foram bem fundamentadas nos princípios da própria Igreja Adventista do Sétimo Dia. A rede de ensino da IASD já está em vantagem nesse aspecto. No entanto, Sônia faz uma ressalva: “Não podemos perder de vista que existem outras realidades de vida, e elas vão além da filosofia pregada pela escola”.

Ainda assim, fica a pergunta: o que pode ser feito para aumentar o número de matrículas, e não apenas manter antigos alunos? A resposta para essa pergunta pode ser de cunho financeiro – já que, de acordo com Sônia, um orçamento apertado é a principal razão que leva responsáveis a matricularem seus dependentes na rede pública de educação.

Contudo, Frozza e Anjos não tomaram medidas financeiras drásticas para atrair novos alunos. Para eles, o posicionamento no mercado de mensalidades deve ser bem definido em um momento de crise. “Manter mensalidades competitivas é fundamental. Mas não devemos entrar em ‘guerra de mensalidades’ com a concorrência, porque esse procedimento desqualifica a educação que oferecemos e levará a escola a ter problemas financeiros”, justificam.

Eles também salientam que a saúde financeira da escola adventista não deve estar diretamente ligada ao número de alunos, e uma mensalidade média-baixa irá inibir investimentos necessários à instituição, como estrutura e qualificação de docentes. Ligado a isso, há um fator chave: valorização perante o mercado. “A valorização do que se oferece cria o conceito, agrega valor, dá credibilidade, gera confiança. Não podemos nos dar ao luxo de desvalorizar nosso ‘produto'”, garantem. Portanto, uma escola bem-sucedida não deve sacrificar o bem-estar de seus alunos e funcionários ao diminuir mensalidades. Nesse exemplo está exemplificado o conceito de “gestor como mediador”, defendido pelo educador Vitor Paro. Um bom relacionamento entre a comunidade, os funcionários e a administração escolar é vital para o desenvolvimento saudável de uma instituição de ensino com valores bem fundamentados, e, inclusive, de cunho evangelístico.

Nas palavras dos administradores da Ucob, o dever das escolas da rede adventista de ensino é oferecer educação pelo que ela agrega e pelo que ela transforma. “O valor da mensalidade faz parte da estratégia de mercado, um item relevante nesse processo, mas não o principal, e se não for bem analisado trará riscos ao negócio. Não pode haver liquidação na arte de ensinar e educar. O conceito de educar com qualidade está muito acima de uma guerra de preços. ”

 

Thamires Mattos é jornalista e redatora da REA