na edição comemorativa de 20 anos, a revista Escola Adventista resgata e sistematiza com os principais especialistas atuantes em nossa rede no Brasil os princípios elementares que alicerçam um dos maiores sistemas de ensino do planeta

Os fundamentos da educação adventista são, sem dúvida, os grandes responsáveis por tornar a rede de ensino na potência atual. A ideia de um trabalho pedagógico que conflua aspectos físicos, mentais e espirituais foi pensado por Deus ao estabelecer sua escola de profetas na Terra. Quando a revista Escola Adventista foi concebida, um dos seus propósitos era o de reforçar em cada edição visões e conceitos práticos dessas diretrizes que norteiam o ensino.

Na edição comemorativa de 20 anos não poderia ser diferente. Reiteramos esses fundamentos, com um trabalho coletivo de pesquisa e apuração, utilizando visões atuais de quem está inserido e pesquisando o nosso contexto acadêmico. Para sistematizar e expandir todas essas ideias, selecionamos 20 tópicos, extraídos do livro Educação, de Ellen G. White, para que a essência redentora do nosso modelo pedagógico seja esmiuçada e esclarecida para que o professor atenda ao apelo cristão de ser um peremptório canal entre o estudante e a eternidade.

 

1. Imagem e semelhança

A educação adventista deve trabalhar com a crença de que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Sua origem é a mais elevada possível. No entanto, por causa do pecado, sua vida é breve e sua visão restrita. Muitas vezes pessoas chegam a conclusões precipitadas sobre fatos anteriores à história bíblica. A ciência está constantemente revisando ou rejeitando teorias com base em novas evidências. Não deveríamos consentir com origens menos elevadas do que a narrada na Bíblia: “filho de Adão, filho de Deus” (Lc 3:38).

Ao enxergarmos nossa real genealogia, teremos uma visão melhor uns dos outros. Entenderemos que aos olhos do Pai somos iguais. Por isso, todos os seres humanos devem ser tratados com respeito. Seus direitos devem ser fortemente preservados. Somos mais que produto do acaso, de milhões de anos; todos nós fomos feitos parecidos com Deus.

 

2. Da comunhão para a restauração

No princípio, o homem fora criado completo e harmonioso, com as características semelhantes ao seu criador. Assim, quanto mais ele vivesse, mais se desenvolveria e refletiria a glória de Deus. Ellen G. White diz que “todas as suas habilidades eram passíveis de desenvolvimento; era ampla a esfera disponível à sua atividade, e magnífico o campo aberto à sua pesquisa. Os mistérios do universo convidavam o homem ao estudo”.

Porém, o pecado alterou os planos e a semelhança com o divino quase que se apagou. Enfraqueceram-se as capacidades físicas e mentais do ser humano e sua visão espiritual também se embaçou. No plano da redenção, Deus quer nos levar de volta à perfeição na qual fomos criados, restaurar-nos à Sua imagem. Pastor e doutor em Teologia Sistemática, Amin Rodor reflete sobre o desenvolvimento completo do homem. “A educação harmônica converge com a obra da salvação, que é uma obra de grande medida, até que se alcance o que Paulo chama de ‘A estatura do homem perfeito’. Esse é um processo que começa aqui e vai até a eternidade”.

Como seres limitados, sentimos necessidade de alguém maior que nós. O finito se liga ao infinito, a mente humana em comunhão com a mente divina. A escola adventista deve perpetuar as práticas de conexão com o criador através do ensino das Escrituras. Se incentivarmos a busca pelo Mestre, harmoniosos serão os aprendizados e os efeitos dessa comunhão, que vai além de qualquer estimativa.

 

3. Desenvolvimento integral e harmonioso

Um Criador completo não admitiria nada menos que uma formação completa para as suas criaturas. É por isso que a educação adventista tem como princípio base o desenvolvimento físico, mental e espiritual de seus alunos, visando todas as suas potencialidades. Uma pedagogia harmoniosa prepara o aluno para enfrentar as realidades práticas da vida sem se tornar vítima delas. É preciso ter ideais elevados quando se pensa em ensino.

Segundo Ellen G. White, só se alcança tais ideais quando se enxerga além do agora. “É muito mais do que a preparação para a vida presente. Visa o ser todo, e todo o período da existência possível ao homem. Prepara o estudante para a satisfação do serviço neste mundo e para aquela alegria mais elevada por um mais dilatado serviço no mundo vindouro”, define. Portanto, que se mexam os corpos o quanto puderem em busca de objetivos nobres; que as mentes percorram as infinitas estradas do conhecimento; e que pensamento e coração estejam ligados diretamente à fonte de todo o saber.

 

4. A perfeita beleza

Deus é o grande artista. Na natureza podemos perceber seu apreço pelo belo. Ao nos criar, Ele não apenas falou, na verdade esculpiu-nos. A Bíblia está cheia de expressões poéticas sublimes. É da natureza do Senhor fazer tudo com beleza e harmonia. Como seus filhos, criados à sua semelhança, somos chamados a fazer o mesmo. A arte e a beleza verdadeira devem ser expressões do caráter de Deus.

O louvor ao Senhor não é apenas uma expressão artística ou melodias ao vento. Quando somos sinceros em nossa adoração, o Céu vem ao encontro da Terra, e temos uma pequena percepção do que será a vida eterna. Ellen G. White nos lembra que “a atmosfera do Céu é composta de melodia de louvor”.

 

5. O caráter superior divino

Logo que saiu do Egito, o povo de Israel precisou de instruções e disciplina divina para prosseguir com ordem. Devido ao longo tempo de escravidão, tornou-se ignorante, indisciplinado e perverso. Possuía o conhecimento de Deus e deixou-se enganar por ideias corrompidas. Durante sua caminhada no deserto, Deus quis lembrá-lo onde deveriam confiar a sua dependência. Nessa história, Deus quis erguer o povo a um nível moral superior, a partir do conhecimento divino como a fonte de vida.

Ao citar essa história, Ellen G. White diz que, ao ter ensinado o povo a confiar em seu amor e poder, era intuito de Deus “colocar diante deles, nos preceitos de Sua lei, a norma de caráter que desejava que, por sua graça, alcançassem”. Segundo o Doutor em Religião e professor da Faculdade Adventista de Teologia do Unasp-EC, Jean Zukowski, “Deus, como criador de tudo, sabe muito mais do que nós mesmos e nos orienta através da palavra como prosseguir sem prejuízos. A Bíblia se apresenta como um manual de sucesso que, seguindo as instruções do Criador, maiores serão as condições de uma vida melhor”.

Os ensinamentos de Deus ao povo durante o período do deserto serviram de preparo para que herdassem Canaã. As lições de vida que a escola adventista estende aos seus alunos também servem de preparo para uma vida elevada. Muito além de livros, conceitos e números, deve ser oferecida a formação de um caráter superior.

 

6. Faculdades ilimitadas

Nenhum estudo é tão elevado e desperta tanto nossas faculdades mentais quanto o da Bíblia. Ao apresentar verdades que vão além de nossas preocupações e interesses rotineiros, somos elevados intelectualmente. Quando nossos estudos não apresentam nada além do comum, a mente fica enfraquecida e limitada. Ela deve ser constantemente forçada a entender o que vai além de nossa capacidade humana. Na educação adventista, a Palavra de Deus é um livro essencial.

A Bíblia é a publicação mais eficaz para o preparo intelectual do ser humano. Ela nos conecta à temas grandiosos, que propõe desafios à nossa própria compreensão, afinal, Deus é capaz de proclamar sua glória em histórias aparentemente simples, mas que contêm preciosos ensinamentos.

Além de impulsionar o desenvolvimento das faculdades mentais, a Bíblia é o único livro capaz de, após diligente e fervoroso estudo, fortalecer a natureza espiritual do ser humano. Ellen G. White afirma: “aquele que, com espírito sincero e receptivo, estuda a Palavra de Deus, procurando compreender suas verdades, será colocado em contato com seu Autor; e, a menos que não o queira, não haverá limites às possibilidades para seu desenvolvimento”.

 

7. A Bíblia como guia

A palavra de Deus transforma vidas. Ao entrarem nos templos, visitarem grupos de estudo e oração, ou mesmo em canções, pessoas são sensibilizadas pela verdade. Quão rica é a oportunidade de ensinar a Bíblia através do cotidiano escolar. A riqueza do livro sagrado permite ao professor ensinar conceitos como obediência, honra, integridade e pureza. Histórias como a de José, por exemplo. Vivendo em terra estranha como prisioneiro, honrou a Deus em todas as adversidades. Sua integridade e pureza frutificaram: foi-lhe concedido o segundo maior cargo político do Egito.

Para a psicóloga e mestra em Psicologia Clínica e professora do Unasp-EC, Jessica Silva, a Bíblia é de grande inspiração no ensino de uma vida honesta, bondosa, generosa e disposta. “Ela é um referencial de como lidar com o seu irmão. Pode ser que, em termos de conteúdo, não faça tanta diferença na minha disciplina. Mas, através do entendimento cristão, ela faz diferença na minha postura como professor, como disciplino e como me relaciono com o próximo, neste caso, meu aluno”.

 

8. Individualidade para contribuir com a coletividade

Deus dotou cada um de nós com uma característica própria do criador: sua individualidade, capacidade de pensar e agir. Lidar com as pluralidades é uma arte. A sala de aula é como uma caixa de lápis coloridos, onde, cada um, individualmente, traça um tom diferente e uma bela ilustração é concebida. O aluno possui a sua capacidade colaborativa, por isso sua identidade deve ser potencializada, contribuindo com a coletividade.

Mas antes de cooperar com o todo, o indivíduo necessita de reflexão e conhecimento pessoal. A verdadeira educação prepara os jovens para que pensem ao ponto de não serem meros refletores do pensamento dos outros, e essa é uma qualidade divina. A mestra em Educação, Denise Oliveira, defende que “um atendimento individualizado e particular, por parte do professor, favorece o desenvolvimento individual do aluno, ajudando-o a descobrir quem ele é e desenvolver suas habilidades e capacidades de pensar e agir por si mesmo”.

Denise ainda destaca que, quando o indivíduo é capaz de tomar suas próprias decisões, raciocinar e pensar por si mesmo, ele demonstra que é um sujeito autônomo, capaz de contribuir na comunidade em que vive reconhecendo seus deveres como indivíduo pertencente a uma coletividade. Ellen G. White afirma que “os homens nos quais se desenvolve essas qualidades são os que encaram responsabilidades, lideram empreendimentos e influenciam pessoas”.

 

9. Ensino da fisiologia e higiene

Apenas simples hábitos. O correr da água pelos encanamentos até que, através do rosquear de uma torneira, ela possa jorrar livremente, enchendo uma das pias do banheiro feminino da escola. Entretanto, qual seria sua utilidade? Lavar as mãos antes de toda refeição, após utilizar o banheiro, escovar os dentes, tomar banho e o uso do álcool gel ao frequentar ambientes públicos são alguns hábitos de higiene. Costumes que nos previnem de possíveis doenças. Contudo, não nascemos sabendo o que é recomendável fazer para ter uma boa higiene. “As crianças devem aprender, desde cedo, os conhecimentos básicos de fisiologia e higiene, por meio de lições simples e fáceis”, aconselha Ellen G. White.

Esse aprendizado, que parece simples, deve começar pela instrução dos pais em casa, mas precisa haver continuidade de ensino na escola. Essa instrução aos pequenos tem grande importância para elucidá-los de que, com esses hábitos e conhecimento, se previne doenças e acidentes, além de evitar certos infortúnios.

Segundo Hadley Vila Nova, especialista em pediatria e imunologia clínica, grande parte dos atendimentos em pediatria são por doenças infecciosas. “A transmissão da maioria dessas doenças é por contato, onde a criança encosta em objetos contaminados e coloca a mão na boca e mucosas, e a partir daí se inicia o ciclo infeccioso e adquire a doença”, explica o médico. Visando a prevenção, ele ainda ressalta de que o ensino de pequenos hábitos como o de lavar as mãos, utilizar álcool gel, e fazer atividades ao ar livre, precisa ser contínuo e funcional.

Desse modo, ensinar os estudantes sobre a fisiologia e higiene é um ato imprescindível na filosofia escolar. Ellen G. White esclarece que “toda escola deve ministrar instrução tanto em fisiologia quanto em higiene, e deve ser provida de instalações para ilustrar a estrutura, o uso e o cuidado do corpo”.

 

10. A educação alimentar prática

Gênesis 1 versículo 29 diz: “E disse Deus: Eis que tenho vos dado toda a erva que dê semente, […]; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento”. Na criação do mundo, princípio de nossa existência, o consumo da carne era inexistente. Assim como no Éden, esse elemento não deve ser diferente em nossas escolas.

Ellen G. White expõe que o maná enviado por Deus mantinha seu povo com intuito de promover força física, mental e moral. “Apesar das dificuldades de sua vida no deserto, não havia uma única pessoa subnutrida em qualquer de suas tribos”, observa. Nas cantinas presentes em nossas escolas, esse princípio não pode divergir.

“A criança que se alimenta corretamente, priorizando o consumo de frutas, legumes, verduras, carboidratos de boa qualidade e proteínas suficientes para a faixa etária, tem melhores condições de aprendizado, atenção, memória e concentração”, explica Gláucia Barrizzelli Murino, mestre em Nutrição Humana Aplicada. “O ambiente escolar é um local excelente para a educação nutricional”.

Então qual seria a oferta de alimentação adequada às nossas escolas? O ideal é que os alunos não sejam submetidos ao consumo de alimentos industrializados ultra processados, preferindo sempre oferecer-lhes alternativas naturais. Esse cardápio pode conter “salada e suco de frutas, salgados preparados com farinha integral e sem queijo, cereais como a granola, iogurtes, sanduíches naturais, castanhas e frutas secas”, recomenda Gláucia. “Esses são alguns exemplos de lanches saudáveis e leves para serem tomados entre as refeições”.

 

11. Ensino musical

Podemos observar que o uso dos fones de ouvido é muito presente na rotina dos jovens que, embalados por melodias aleatórias, levam a vida com mais leveza. A música tem um papel extraordinário. É uma ferramenta utilizada em trilhas sonoras de filmes e reportagens, pode deixar um ambiente mais descontraído, é objeto de admiração em teatros e concertos e até pode ser usada como tratamento terapêutico. O ensino dela não é muito diferente.

Segundo a lei 11.769 sancionada em 18 de agosto de 2008, é obrigatório o ensino da música nas escolas de educação básica, públicas e privadas. Essa área do saber ensina de forma divertida e aumenta o desempenho; insere o aluno dentro da cultura local e regional; desenvolve e promove a interação; melhora a leitura, compreensão de textos e conteúdos matemáticos e também é uma forma de expressão.

Para Jetro Meira de Oliveira, doutor em Artes Musicais pela Universidade de Illinois e professor do Unasp-EC, a música pode ser uma maravilhosa ferramenta de transdisciplinaridade e interdisciplinaridade. “Geralmente a música está na escola apenas como acessório de beleza e entretenimento. Isso me preocupa. A prática deve ser norteada pelo princípio de pluralidade de expressão cultural e estética”, menciona.

Na educação adventista diariamente as aulas são iniciadas com louvor. O louvor é uma prática que vem desde os tempos bíblicos. “Cantem ao Senhor, pois triunfou gloriosamente”, diz o livro de Êxodo. Sobre o texto bíblico, Ellen G. White descreve que “muitas vezes na jornada esse cântico era repetido, animando os corações e despertando a fé nos viajantes peregrinos”.

Meira fala ainda que é preciso estudar músicas de outas regiões e épocas para conhecer as possibilidades expressivas e comunicativas, pois ela envolve história, sociologia, política, filosofia, teologia e muito mais. “Temos que ter cuidado para não criarmos currículos rígidos, engessados, que não contemplem a possibilidade de ajustes locais e de criatividade individual e coletiva”, adverte. “A educação cristã deve prezar ainda mais pelo ensino de música”.

 

12. O maior exemplo

Exemplo. Contexto exemplar. Ambiente exemplar. Mestre exemplar. De onde provém nossos modelos de conduta para que sejam contemplados por nossos alunos? O maior exemplo de paciência, disciplina, simplicidade, obediência, e fidelidade para com as pessoas tem um nome: Cristo. Mesmo que se tenha todo o conhecimento de processos metodológicos e didáticos, variadas titulações, e dedicação ao serviço, sem o principal modelo, perde-se a essência da nossa educação.

“Cristo veio para demonstrar o valor dos princípios divinos, revelando o poder deles na regeneração da humanidade. Veio para ensinar como esses princípios devem ser desenvolvidos e aplicados”, escreve Ellen G. White. Para que o modelo de Cristo seja prático, devemos retornar à Bíblia seguindo o modelo da educação que Jesus, quando menino, obteve. Essa educação foi pautada “diretamente por fontes indicadas pelo Céu: o trabalho útil, o estudo das Escrituras e da natureza e a experiência da vida – guias divinos, cheios de instruções a todos os que lhes trazem mãos voluntárias, olhos que veem e coração compreensivo”, ilustra.

Quando temos como base a Bíblia como fonte do ensino, as demais coisas que agregarmos à sala de aula fluem. Pois o plano divino de educação, ao qual nosso Mestre foi submetido, trouxe frutos não só para a formação acadêmica, mas também para a vida.

 

13. A empatia ao ensinar

Chegar na sala de aula e se deparar com olhos atentos e ansiosos por conhecimento é uma das sensações almejadas para quem tem o prazer em lecionar. Mas sabemos que só abrir os livros e despejar conteúdo para os discentes não é tudo.  Não existe didática sem a empatia. “Aquele que procura transformar a humanidade deve compreender ele próprio a humanidade. Unicamente pela empatia, pela fé e pelo amor, as pessoas podem ser alcançadas e enobrecidas”, alerta Ellen G. White.

A relação professor-aluno e o processo de ensino-aprendizagem “dependem não só da seleção de conteúdo, organização e sistematização didática do trabalho, mas da relação de proximidade e empatia construída entre professor e alunos, tarefa inicialmente colocada para o corpo docente na atividade escolar”, explica Osmar Rufino Braga, doutor em Educação.

Dentro da nossa filosofia, temos Jesus como maior exemplo de empatia. Ellen G. White apresenta Cristo como Mestre por excelência. “De todos os que viveram na Terra, somente Ele tem perfeita compreensão da natureza humana. Nunca houve outro cuja compaixão fosse tão ampla e terna”, declara.

Para a professora Romilda Motta, doutora em História Social pela USP, as práticas didáticas em nosso meio precisam envolver o espírito cristão. “Portando o título de ‘cristãos’, de algum modo, a forma como desempenhamos a profissão e nos relacionamos com os alunos, pode levá-los a desejarem uma relação com a religiosidade, compartilhar de experiência e vivências, ou não”, ressalta.

Ela ainda explica que na relação empática deve haver respeito e consideração às inteligências múltiplas, suas dificuldades socioeconômicas, necessidades especiais, sensibilidades relacionadas a questões como diversidade étnica, religiosa, ideológica. E conclui, “Não é tarefa fácil. Mas vale a pena buscar essa prática”.

 

14. Aprendizagem natural

Talvez, um dos principais desafios da educação seja saber o momento e a forma correta de intervir para que os alunos aprendam e se desenvolvam. Ellen G. White alerta que “a verdadeira educação não consiste em forçar a instrução de uma mente despreparada”. E já emenda uma resolução efetiva: “as faculdades mentais e o interesse devem ser despertados”.

Ou seja, o processo de aprendizagem e de recepção de um determinado assunto ou conteúdo deve ser previamente trabalhado pelo professor para que seja compreendido dentro de um contexto e de forma natural. Se formos analisar o jeito como Jesus ensinava, ele considerava todas essas questões. Resgatando a história Bíblica, é fácil constatar que Deus se utilizou de diferentes formas para transmitir a Israel mensagens que “ilustravam seus princípios e preservavam a memória de Suas maravilhosas obras”, relata Ellen G. White.

Rodrigo Follis, Doutor em Ciência da Religião e professor do Unasp-EC, acrescenta que Deus, para falar com seu povo, sempre usou diferentes recursos como instrumentos para sua comunicação. Seja através de profetas, de seres humanos que ajudam uns aos outros ou mesmo com amor fraternal. “Mas, principalmente, se fazendo humano e vindo até aqui se comunicar conosco. Como nos lembra Hebreus 1:1-2, ‘Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo’”, acrescenta.

 

15. Combate à corrupção

Infelizmente, chegamos ao ponto de que ligar a televisão ou rolar a timeline de redes sociais na internet e presenciar notícias rotineiras de bilhões e bilhões de reais do dinheiro público sendo surrupiado, tudo isso encarado sem o impacto de algo novo ou sem, ao menos, gerar consternação coletiva. É a banalização da corrupção em seu cerne mais dramático. Como professores cristãos, não podemos permitir que nossos alunos cresçam nesse cenário, onde o imoral seja encarado como algo “normal”.

Nossas instituições precisam servir, como menciona Ellen G. White, como “barreira contra a corrupção”, mesmo que ela esteja instaurada em todas as partes da nossa sociedade, incluindo nos detalhes da nossa própria rotina. Nesse sentido, o professor deve servir como um exemplo de retidão e honestidade aos estudantes, além de trabalhar para mostrar que os grandes atos de corrupção se iniciam com pequenos no dia a dia, quando se quer dar um jeito “fora da regra” para o benefício próprio.

Para Elder Hosokawa, mestre em História Social (USP) e coordenador do curso de licenciatura em História do Unasp-EC, a situação é tão crônica que as pessoas já não acreditam em uma solução para o problema. “Rui Barbosa já dizia num discurso no Senado Federal no Rio de Janeiro em 1914: ‘De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto’”, conta.

Apesar do cenário desanimador, Hosokawa salienta que “devemos ser uma voz no deserto, praticando e anunciando os princípios do decálogo. Uma sociedade só exercerá justiça social se seus cidadãos primarem pela honestidade”. Ellen G. White acredita que só assim conseguiremos preparar a nossa juventude para “promover a prosperidade da nação, dotando-a de homens habilitados para agir no temor de Deus como dirigentes e conselheiros”.

 

16. Ensino além da sala de aula

Lápis, caneta, carteira, quadro, professor falando, aluno escutando. Faz algum tempo que esse modelo é questionado como sendo única forma efetiva de ensinar. É claro que é um cenário ainda muito presente em nosso modelo atual, mas as instituições de ensino vêm trabalhando cada vez mais para mudar esse quadro em virtude dos inúmeros estudos indicando a importância de se utilizar novos ambientes de ensino para uma aprendizagem completa.

O interessante é observar que muito antes dessa discussão se fazer presente nos debates acadêmicos da pedagogia contemporânea, Ellen G. White afirmava que “a atenção dada à recreação e à cultura física e à cultura, sem dúvida, por vezes interromperá a rotina do trabalho escolar; porém, essa interrupção não será um empecilho. O emprego de tempo e esforço no sentido de fortalecer a mente e o corpo”.

Para Eliane Paroschi, mestra em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem e professora do Unasp-EC, “o contato com a terra, plantas e animais contribui para instigar o conhecimento sobre o mundo natural, fator de muita curiosidade para uma criança que está descobrindo o mundo ao seu redor. Esse contato une o conhecimento teórico e cognitivo ao prático, fazendo com que o saber seja significativo”.

Além desses, outros fatores também são beneficiados, “pois é através deste contato com a natureza que as crianças começam a entender o amor, o cuidado e o poder de um Ser grandioso que tudo criou em nosso benefício”, acrescenta Eliane.

A educação integral valoriza as atividades práticas, o cultivo do solo e o cuidado com os animais. A natureza apresenta uma fonte infalível e infindável de instrução, prazer e uma efetiva integralidade.

 

17. Estímulo à vivência de acordo com a idade

Existe um ditado muito utilizado por nossos avós que diz “tudo tem o seu tempo”. E essa deve ser de fato uma constante na vida. O educador, assim como os pais, deve cultivar a ideia de fazer o estudante viver experiências que se adequem aos períodos da vida, pois cada momento tem uma beleza e uma importância adequada ao seu tempo.

Ellen G. White afirma que “pais e professores devem ter como objetivo cultivar as tendências dos jovens, de tal maneira que, em cada estágio da vida, possam representar a beleza apropriada àquele período, desenvolvendo-se naturalmente, como fazem as plantas no jardim”. É importante dar espaço a essa temporalidade para que as crianças experimentem a simplicidade infantil, comecem a desenvolver a responsabilidade de cumprir com os seus deveres, além de poder desfrutar dos prazeres e experiências próprias da idade.

Independente da cultura, é relevante para a humanidade que as crianças sejam conscientes do seu contexto de vida temporal, sem esquecer que devemos prepará-las também para encararem as coisas do alto como sublimes e eternas.

 

18. Importância do trabalho

A verdadeira educação valoriza a dignidade presente no trabalho honesto. Tal atividade permeia toda a criação de Deus, e cada coisa na natureza executa uma determinada função. Também devemos ser ativos para cumprir nossa missão. Além disso, o trabalho previne a tentação. A disciplina presente nessas atividades coloca barreiras ao nosso orgulho e autossatisfação, promovendo habilidade, firmeza e de propósito. Tudo isso é parte do grande plano de recuperação humana promovido por Deus. Para sermos mais como Ele é, devemos trabalhar.

Ellen G. White reforça que “Deus é um trabalhador constante. Em nosso trabalho, devemos ser cooperadores de Deus. Ele nos dá a terra e seus tesouros; nós, porém, devemos adaptá-los para nosso uso e conforto”. O Senhor faz com que as árvores cresçam e oculta na terra minerais preciosos, mas é apenas mediante o esforço humano que a madeira pode ser útil e os minerais extraídos. O trabalho honesto não é degradante, nem motivo de vergonha.

 

19. Educação prática

“Certo homem saiu para semear. Enquanto semeava, uma parte das sementes caiu à beira do caminho e os pássaros vieram e as comeram. Outra parte caiu no meio de pedras, onde havia pouca terra. Essas sementes brotaram depressa pois a terra não era funda, mas, quando o sol apareceu, elas secaram, pois não tinham raízes. Outra parte das sementes caiu no meio de espinhos, os quais cresceram e as sufocaram. Uma outra parte ainda caiu em terra boa e deu frutos, produzindo 30, 60 e até mesmo 100 vezes mais do que tinha sido plantado. Quem pode ouvir, ouça”. Essa é uma das diversas e conhecidas parábolas utilizadas pelo Mestre para ilustrar os seus conhecimentos de forma acessível e prática.

Assim como o semeador da história, precisamos plantar o conhecimento da forma mais eficiente possível. Para isso, é necessário ser claro e prático, como Jesus era em seus ensinamentos. É necessário que os professores se apropriem da utilização de histórias, parábolas e ilustrações dos acontecimentos da vida e de elementos que são familiares aos alunos para explicação dos mais variados conteúdos.

Luciane Hees, doutora em Psicologia da Educação e professora do Unasp-EC, sublinha que a aquisição do conhecimento sofre diversas variáveis, sendo que a principal delas está relacionada com os estilos de aprendizagem inerentes à cada indivíduo. “Além disso, quanto mais prático for esse processo mais sentido terá para o aluno, que irá aprender num contexto mais motivador e significativo”, opina. Para tornar esse cenário possível, criatividade é fundamental na rotina do professor para aprimorar suas práticas pedagógicas.

Ellen G. White observa que a vida de Jesus é um grande exemplo da importância de se instruir de forma prática e competente. “Em seus ensinos, havia algo de interessante para todas as mentes, para apelar a todo coração. Assim, os afazeres diários, em vez de serem mera rotina de trabalho, destituídos de pensamentos elevados, iluminavam-se e erguiam-se pelas constantes lembranças de coisas espirituais e invisíveis”, lembra. Assim, a semente do ensino será mais eficiente, germinará e frutificará em forma de redenção terrena e eterna.

 

20. Escola da eternidade

A educação não acabará em nosso mundo imperfeito. Segundo Ellen G. White, “o Céu é uma escola; o campo de seus estudos, o Universo; seu professor, o Ser infinito”. Tal educação é perfeita; já foi exercida no Éden, antes do pecado. Após o cumprimento do plano da redenção, suas funções serão plenamente reestabelecidas. O Educador Maior será nosso guia. O conhecimento adquirido nessa Terra é muito pequeno, se comparado ao que obteremos ao participar das maravilhosas aulas de Cristo nas mansões celestiais.

Pelo estudo da Bíblia, temos uma revelação parcial do que está por vir, mas a grandeza da escola do futuro não é tangível para nós: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que O amam” (1Co 2:9). A Educação Adventista tem como grande propósito levar mais e mais alunos em direção à educação perfeita do Céu.

 

Thiago Basílio é jornalista, mestre em Divulgação Científica e Cultural, editor-chefe da REA e professor do Unasp

Mauren Fernandes é jornalista e editora-adjunta da REA

Kemelly Ferreira é estudante de jornalismo no Unasp e produtora da REA

Thamires Mattos é jornalista e redatora da REA