O inóspito continente antártico não tem um dono, mas abriga as mais relevantes pesquisas sobre o futuro do planeta.

Era uma vez um lugar intocável. Os 13,6 milhões de quilômetros quadrados ao extremo sul, onde o verão na parte mais amena não sobe de zero grau e o inverno tem médias de -60ºC no interior do continente, têm quase a totalidade de sua superfície coberta pelo gelo. Não é de se espantar que só no século 19 o homem chegou por lá: as condições do ambiente não são as mais favoráveis para serem habitadas. Ano de 1821. O americano e caçador de focas John Davis marcou a história como o início da presença humana na região. Ao pisar na Antártica, o ser humano ampliou os seus limitados conhecimentos acerca da Terra.

A raiz semântica histórica, vinda do grego ártktikós, resultou no nome da região gelada do Hemisfério Norte, o Ártico. Mas a descoberta de um continente nas mesmas condições climáticas ao sul resultou na outra nomenclatura. “Antes mesmo de ser constatada a existência do continente do Sul, algumas referências filosóficas já se supunham que havia um ‘anti-ártico’ para equilibrar a massa da esfera planetária”, explica o doutor em Geologia Alexandre Perinotto, que prefere não usar a nomenclatura “Antártida”, seguindo os parâmetros dos documentos oficiais.

Mais seco, mais gelado, com maior altitude e os ventos mais intensos. As diversas peculiaridades naturais do continente branco têm relação direta com o clima do Hemisfério Sul, afinal, de lá partem as massas de ar frias que viajam até região equatorial, onde quebram as massas de ar quente. Resumindo, nosso clima vem de baixo e é preciso desvenda-lo. E não é só isso que torna o continente relevante para o mundo. Estudos estimam que 70% da água potável do planeta estejam no gelo que cobre a superfície da Antártica, além de possíveis depósitos minerais, ambas intocados pelo homem.

Tantas particularidades despertaram a atenção da ciência. A princípio, seu litoral foi explorado em busca de focas e baleias, para pesca. Apenas no século 20 que expedições dos Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Japão, Noruega e Rússia desbravaram o interior do continente, dando início às buscas científicas, sendo o norueguês Roald Amundsen o primeiro a chegar no polo Sul geográfico da Terra. Épico. Ali começara o período colonial de uma terra de ninguém, onde muitos, sem sucesso, tentaram içar bandeiras por lá.

Foi preciso colocar ordem na bagunça. Para começar, em 1959, 12 países assinaram o “Tratado da Antártica”, que se baseou em princípios de não militarização, não nuclearização, liberdade de pesquisa científica, proteção do meio ambiente e congelamento de qualquer reivindicação territorial. Todas as medidas objetivam assegurar que o continente branco seja usado apenas para fins pacíficos e cooperação internacional, não abrindo brecha para discórdia geopolítica. Hoje já são 53 países de acordo com tratado. O Brasil está entre eles.

Falar da Antártica sem considerar a pesquisa seria uma rude injustiça. Afinal, a população do continente varia de acordo com a estação do ano – cerca de 5 mil no verão e mil no inverno – mas nunca muda o tipo de habitante: pesquisadores. Dentro do processo histórico de apropriação daquelas terras, a pesquisa foi a personagem principal. “Ela transformou-se em um vital instrumento a serviço da geopolítica antártica mundial”, afirma Rogério Gandra, doutor em Geografia e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Pesquisa em terras distantes

“Mas por que ir tão longe para pesquisar?”, alguns devem questionar. Simples e quase sobrenatural: a dinâmica climática de lá interfere no resto do globo. “Devido à presença de 70% do volume de massa de gelo do planeta, a Antártica é o principal sorvedouro de energia da terra, tendo papel essencial na circulação atmosférica e oceânica – consecutivamente, no sistema climático terrestre”, conta Jefferson Simões, que é vice-presidente do Comitê Científico sobre Pesquisa Antártica (SCAR, em inglês), órgão internacional responsável pelos estudos científicos no continente gelado.

Anos de estudos constataram a sensibilidade da Antártica às mudanças ambientais. Algumas constatações são conhecidas, como o buraco na camada de ozônio, que ainda atinge recordes sobre o céu de lá e o aquecimento do oceano Austral. Essa elevação de temperatura também anda fazendo com que parte do gelo antártico diminua, contribuindo para o aumento do nível dos mares. Além disso, diversas espécies de animais estão cada vez mais avançando para o sul em busca de baixas temperaturas.

O Brasil na Antártica

Coordenado pela Secretaria de Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) conta com a participação e financiamento de três ministérios. O da Defesa responsabiliza-se pela logística, providenciando navios polares e mantendo a estação de pesquisas Comandante Ferraz. Para financiar os estudos, via Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Proantar conta com o auxílio do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Já o Ministério das Relações Exteriores é o responsável pela relação do Brasil com o Tratado da Antártica.

São mais de 20 universidades participando de pesquisas financiadas pelo CNPq, com aproximadamente 200 cientistas dedicados aos assuntos antárticos. No Brasil, Simões ocupa o cargo de coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT da Criosfera), além de dirigir o Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), referência mundial em pesquisas glaciais. Tal envolvimento com esse universo lhe rendeu a coordenação da elaboração do plano de ação Ciência Antártica para o Brasil, que foi lançado em 2013, com validade até o ano de 2022.

O documento, que planeja as ações da próxima década, age estrategicamente em busca da ampliação do conhecimento científico sobre a relação da Antártica com o meio ambiente do Brasil. As investigações são divididas em cinco áreas e você pode saber quais são elas no fim deste artigo.

Além de posicionar o Brasil em um patamar elevado da ciência internacional, a pesquisa tem finalidades claramente políticas. “Participando do Tratado da Antártica, o Brasil não só participa de um regime internacional altamente prestigiado, mas também abre a possibilidade de sua voz ser escutada em relação ao continente”, analisa Ignácio Cardone, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O continente antártico não possui uma divisão territorial ou geopoliticamente definida, afinal, o Tratado de 1959 não permitiu isso. Porém, há quem advogue a partilha do continente, baseando-se em outras teorias que propõem modelos de apropriação territorial. Doutorando no programa de pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Cardone desenvolve pesquisas sobre o territorialismo antártico brasileiro e cita a “teoria da defrontação” de Terezinha de Castro.

Contrariando o posicionamento nacional, que está de acordo com o tratado, Cardone discorre sobre a teoria da defrontação, que defende a partilha entre os países sul-americanos que têm meridianos compatíveis com os marcos litorâneos do continente branco. Segundo ele, “o Brasil tem apresentado ‘reservas’ que parecem devir dessa aproximação com a teoria da defrontação no que se refere a proteger seus interesses diretos e substanciais na Antártida”. Porém, admite a isenção de um posicionamento oficial do Brasil com relação ao assunto.

Avanços futuros

A estação antártica Comandante Ferraz funcionava, desde 1984, como a base de pesquisas brasileiras no continente branco. Repentinamente, no ano de 2012, um incêndio iniciado na casa de máquinas destruiu 80% das instalações, perdendo duas vidas e prejudicando parte dos 28 anos de estudo. Atualmente, o local ainda é um canteiro de obras. A nova estrutura deveria estar pronta em 2016, mas devido às dificuldades financeiras a inauguração está prevista para março de 2018. Por enquanto, contêineres ainda servem de lar para os pesquisadores até que a nova casa fique pronta.

Restabelecer a residência física da pesquisa brasileira na Antártica é sinônimo de dar passos largos em direção ao conhecimento acerca da natureza de lá e das influências que exerce no Brasil e no resto do planeta. Ampliar conhecimentos sobre a Antártica é vibrar diante da infinita exuberância dessa terra de todos.

 

Principais frentes de estudo

A pesquisa antártica brasileira está focada nas relações entre a região antártica e o meio ambiente brasileiro. Em 2013, o governo propôs um plano de ação que se estende até 2022, onde cinco áreas temáticas dividem as principais pesquisas.

  1. O papel da criosfera no sistema terrestre e as interações com a América do Sul
  2. Biocomplexidade dos ecossistemas antárticos, suas conexões com a América do Sul e as mudanças climáticas
  3. Mudanças climáticas e o Oceano Austral
  4. Geodinâmica e história geológica da Antártica e suas relações com a América do Sul
  5. Dinâmica da alta atmosfera na Antártica, interações com o geoespaço e conexões com a América do Sul

 

Como ensinar

O Ministério da Educação, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, disponibiliza em PDF a coleção “Explorando o ensino”, em que o volume 9 é dedicado exclusivamente ao ensino da Antártica. O doutor Jefferson Simões, que contribuiu com esta reportagem, foi um dos colaboradores na elaboração desse material. Aproveite para utilizar gratuitamente o guia “Explorando o ensino – Antártica” em sala de aula.

Disciplina: Geografia

Possibilidade interdisciplinar: Biologia.

Série: 6º ao 9º ano e ensino médio.

Objetivo de aprendizagem: Fazer conhecido para os alunos a biodiversidade, as peculiaridades da vida no local, as relações geopolíticas que o envolvem e a importância da pesquisa na Antártica para o clima do planeta.

 

Mauren Fernandes é jornalista e editora adjunta da REA