Naquela tarde quente de janeiro, em um cômodo repleto de bonecas, canetinhas, cadernetas e papeis de todos os tipos, três meninas enchiam de rabiscos todo espaço em branco que encontravam. Eram riscos que iam da direita para a esquerda, de cima para baixo e outras direções para representar letras, sílabas ou palavras. Risadas estridentes ecoavam pelos corredores da casa que, naquele momento, era para elas uma escolinha muito divertida. A brincadeira era regida naturalmente pela pequena Odiléia, que fazia questão de ser a professora daquela modesta classe. Havia um certo glamour em ensinar palavras novas e números muito divertidos para suas irmãs… Ah! Tanto ainda iria acontecer.

Aquelas brincadeiras criativas em São Bernardo do Campo, no interior paulista, eram o prenúncio de um talento que não se contentaria apenas com a realidade daquela cidade: era preciso realizar viagens reais e imaginárias para experimentar outros contextos. Dessa forma, a jovem Odiléia Lindquist iniciou sua jornada “educacional” em Curitiba (PR) como estudante da primeira turma do Magistério no Instituto Adventista Paranaense (IAP) – que hoje está localizado na cidade de Ivatuba (PR), a 25 quilômetros de Maringá (PR). O ano era 1968, e, com apenas 16 anos de idade, ela experimentava pela primeira vez como era estar à frente de olhares ansiosos, sedentos por conhecimento.

Primeiros passos

Aqueles dois anos lecionando para turmas no IAP foram o começo de uma carreira que duraria décadas, mas Odiléia só viveria a experiência do ensino de maneira mais intensa a cerca de 90 quilômetros dali, em Paranaguá (PR). A década de 1970 estava apenas começando, e, com ela, a nova professora adentrava pela primeira vez uma sala de aula “para chamar de sua”, na Escola Adventista de Paranaguá.

Depois de algum tempo, ela retornou a Curitiba (PR) e atuou no Centro Educacional Adventista Carlos de Carvalho que, na época, estava situado nos fundos da igreja Central de Curitiba – hoje, o Colégio Curitibano Adventista (CCA). Sua próxima parada foi no Norte do Brasil, no Instituto Adventista Grão-Pará, em Belém (PA). De lá, foi para o Centro Adventista de Fortaleza (CAF) e, logo em seguida, retornou para o CCA, no Paraná.

Nessa longa trajetória, além de lecionar, atuou como orientadora educacional e pedagógica e diretora de escola. Isso mesmo que você leu. Ela diz que, como esposa de pastor, precisou se reinventar onde quer que estivesse. O processo de alfabetização, segundo a educadora, é encantador, pois “vê-las [as crianças] vaidosas lendo tudo à sua frente é fascinante! Quando estava na orientação educacional, por exemplo, foi gratificante ver os alunos com baixo rendimento resgatando sua autoestima e se desenvolvendo com brilhantismo”, recorda. Ao ser indagada sobre o tempo que ficou em sala de aula responde com graça: “comecei no ano de 1968 e concluí em 2011. Faça as continhas”.

A escritora

Hoje, Odiléia atua como professora voluntária na Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (Adra), auxiliando na alfabetização de crianças que estão nos terceiros e quartos anos. Entretanto, sua atuação na educação tem ido muito além da presença física em sala de aula. Por dezesseis anos ela desempenhou a função de editora de livros didáticos da Casa Publicadora Brasileira (CPB) e pôde participar ativamente no processo de produção dos materiais utilizados por professores da rede adventista de ensino em todo o país.

Dotada de sensibilidade com as palavras e gosto pela arte da escrita, é autora de nove livros paradidáticos infantis publicados pela CPB. Títulos como “Cadê o patinho feio?”, “A descoberta de Lana”, “Felicidade é… Felicidade não é”, “Coisas que machucam por dentro… e por fora”, “Tempo de ser amigo” e “Girassol”, entre outros, em parceria com Ivacy Oliveira. Sua última publicação foi “A Bisa está doente”. Livros estes que, independente do tempo e geração, são referência para um aprendizado divertido e interdisciplinar. Quem poderia imaginar que aquela menina brincando de professora se tornaria referência e deixaria marcas lindas por onde quer que passasse? Odiléia Lindquist deixou.

*Odiléia Lindquist também foi Gerente de Didáticos na CPB por dois anos, atuou como conselheira da Telepaz e participou da produção do programa televisivo “Fé para Hoje”, em Belém (PA).

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Texto escrito por Kemelly Ferreira, estudante do 4º ano de Jornalismo do Unasp-EC e estagiária da REA
Revisão por Alysson Huf, coeditor da REA