“Todos entenderam, captaram?” Essa é a pergunta que caracteriza as aulas da professora Geanne dos Santos Cabral Coe. Com sotaque carregado e personalidade extrovertida, ela não esconde em sala de aula sua raiz carioca. De origem simples, Geanne foi criada na Zona Oeste do Rio de Janeiro e morou durante a infância em uma rua que dava acesso a uma das favelas mais perigosas da cidade.

Como se não bastassem as condições financeiras limitadas, seu pai era alcoólatra. Em meio a esse contexto familiar de poucas perspectivas, sua história se formou como uma “colcha de retalhos” – uma junção de  partes coloridas, nem sempre felizes, de cada vida que cruzou com a sua. Pessoas que ela costurou na alma e que a fizeram ser quem ela é.

Um dessas pessoas foi a professora Marli, que lhe deu aulas de Língua Portuguesa em 1984. Certo dia, a docente comemorou a nota 9,6 de uma aluna em sua prova e compartilhou sua alegria com as quatro turmas de quinta série da escola municipal em que lecionava. Para surpresa da Geanne, a nota era dela.

Seu coração se encheu de alegria ao receber elogios dos colegas, e, a partir deste episódio, as aulas de português passaram a ter um significado diferente para a estudante. “Meu gosto pela língua cresceu muito mais”, afirma.

Quando estava na sétima série, já cogitava qual profissão teria quando crescesse. Desta vez, foi a professora Silva quem a cativou. Nada passava desapercebido para Geanne, e o jeito de Silva lecionar não foi diferente. “Não me lembro de tê-la visto sorrir uma vez sequer, embora fosse nova, mas ela tinha um jeito de ensinar análise sintática que conquistou meu coração”, relembra. Tomada por essa nova paixão, afirmou para si mesma que seria professora de Letras e que daria aula em um internato adventista.

A admiração pela profissão também podia ser notada em suas brincadeiras. Geanne usava um pedaço de madeira como quadro negro enquanto falava a suas bonecas o que aprendera na escola. Assim, ela revisava a matéria do dia e se divertia. “Eu tinha um jeito peculiar de estudar”, conta.

O tempo passou, e estudar em uma universidade parecia uma realidade distante, até o dia em que, ao voltar de um evento da igreja, passou em frente a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).  O tamanho do prédio e a cor acinzentada a deixaram curiosa. “Aqui que se forma em Medicina, Odontologia, Letras…”, explicou sua irmã Emeirie.

“Ah, é? Então será aqui que cursarei Letras e serei professora de português”, Geanne pensou alto. E em 1992, em seu primeiro vestibular, ela ingressou na UERJ para cursar Português-Hebraico e Literaturas. Foi lá que ela conheceu outras duas pessoas importantes para sua história.

“Era para ser fácil a minha passagem pela UERJ. Pelo menos assim eu esperava, já que estaria cursando áreas que me atraíam; porém, no meio do caminho tinha uma pedra… E se chamava Literatura”, recorda. Geanne descobriu, depois de quatro períodos, que o seu problema não era com a disciplina, mas com uma professora que tinha prazer em dizer que era normal a maioria dos alunos reprovarem com ela.

Quando percebeu que não conseguiria tirar mais que 3,5 com a professora, pensou que jamais conseguiria obter seu diploma. O curso exigia seis períodos de Literatura, e ela não conseguia sair do primeiro. Essa fase não foi nada fácil. “Criei um trauma terrível e estava desacreditando de minha capacidade intelectual”, conta com pesar. Mudar de professora foi a solução.

Na primeira aula com a nova professora, Geanne expôs suas expectativas sobre a matéria. Diferentemente da docente anterior, a nova estava disposta a ajudá-la. “A professora Nilma olhou-me com tanta empatia que jamais esquecerei suas palavras: ‘Preciso tratar seu emocional.’ E foi o que ela fez”, relata.

Esse não foi o único obstáculo na sua vida acadêmica. Nessa mesma época, durante uma gravidez, sofreu deslocamento de placenta e perdeu o bebê. Por conta disso, trancou o curso. Nilma foi quem percebeu sua ausência e a convenceu a continuar os estudos. “Fechei o primeiro semestre com 10”, conta com satisfação.

“Entendi que há professores e professores e que tipo de professora eu queria ser. Foi o exemplo da professora Nilma que eu busquei seguir. Em meio a tantos alunos no curso de Letras da UERJ, esta professora me enxergou individualmente; para ela, eu não era apenas um número”, expõe com sincera admiração.

Essas professoras são como retalhos na colcha que é a vida de Geanne, que hoje realiza o sonho de lecionar para alunos de um internato (Faculdade Adventista de Minas Gerais) e tem por objetivo deixar pedacinhos de si mesma nas histórias de quem encontrar. “Ela sempre conta histórias da vida dela para incentivar a gente. Eu gosto muito disso”, conta uma de suas alunas, Julia Mendes. “Nunca vou esquecer as lições de vida que ela me ensinou. Me mostrou que descobrir mais de mim mesma é demais, e, a partir disso, posso ajudar outros a fazer o mesmo”, relata a ex-aluna Ana Paula Barbosa. Essa tem sido a filosofia de educação de Geanne há 22 anos.

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Texto escrito por Isabella Mendes, estudante do 2º ano de Jornalismo do Unasp-EC e estagiária da REA
Revisão por Alysson Huf, coeditor da REA