Aquela sala de aula agitada e falante com alunos do ensino fundamental não era novidade para a paranaense recém-chegada à Cidade Maravilhosa. Mesmo ensinando inglês para aqueles pequenos cariocas, as brincadeiras dos alunos, em relação ao sotaque da professora, eram sem fim. Assim que virava as costas, Mirian percebia um “rrrr” dos alunos. Ponderando como poderia lidar com a situação, pensou em duas alternativas: ficar brava ou levar na esportiva. “Escolhi a segunda opção, e a piada dos alunos perdeu a graça para eles. Nunca mais fizeram graça com meu ‘erre’”, recorda saudosamente.

A jovem Mirian Montanari nunca imaginaria que um dia daria aulas. Sempre muito incentivada à leitura pelos pais, ganhou seu primeiro livro aos três anos de idade. O livro usado, “Vida de Jesus”, que ganhara, ela tem até hoje. Diferente do livro que permanece da mesma forma após tantos anos, Mirian passou por mudanças radicais e constantes. Natural de Bom Sucesso (PR), vivia em uma casa que não possuía televisão. Desde cedo virou amiga dos livros e do conhecimento. Queria ser cardiologista, mas os planos mudaram quando ingressou, aos 19 anos, na faculdade de Enfermagem.

Já estava no terceiro semestre do curso quando tudo aconteceu. Ela seria avaliada na prática durante todo o procedimento. A prova era em dupla e cada um deveria aplicar injeções de soro fisiológico no parceiro. E por mais que fosse uma avaliação, Mirian ainda não estava acostumada a “furar” alguém. Isso ficava cada vez mais evidente enquanto ela, aos poucos, executava os procedimentos tremendo de tanta tensão. Ela ouviu as seguintes palavras da professora: “Onde se viu tremer assim? Você deveria pensar se realmente quer ser enfermeira. Quem sabe deveria fazer outra coisa”. Naquele dia, mesmo consciente de que era uma boa aluna, finalizou o processo e saiu chorando do laboratório. Nunca mais voltou.

Sala de aula?

A capital paulista estava efervescente naquela tarde, como de costume. Era início dos anos 1990 e, juntamente com essa década “nova”, a novidade bateria à porta de Mirian Montanari Grüdtner através de um convite inusitado. Na época, muitos professores de escola de ensino público estavam em greve e faltavam docentes para ministrar determinadas disciplinas, entre elas Inglês e Língua Portuguesa. Mirian fazia um curso de inglês e foi convidada a dar aulas de inglês. Entretanto, a diretora daquela escola localizada na zona sul da capital insistiu veementemente para que ela lecionasse Língua Portuguesa também.

Não foi algo fácil de lidar. A sala de aula e o exercício da profissão de professora não era bem visto por ela. Entretanto, a experiência veio a calhar para mudar seus paradigmas e fazê-la se apaixonar. “Foi amor à primeira vista”, relembra. Os alunos em sua maioria eram de periferia e vinham de contextos nada simplórios. “Um dos alunos havia agredido uma professora de Matemática, mas se tornou meu amigo. Outra engravidou do namorado e perdeu o bebê. Eu era sua conselheira”, Mirian apresenta a situação de maneira reflexiva. Dar aulas para aqueles alunos de 6º ao 9º ano foi um marco decisivo para que aspirasse a se tornar efetivamente uma profissional em educação. Decidiu cursar Letras.

Foi em 1992 que iniciou seus estudos em Porto Alegre (RS) – cidade em que morava na época –, e graduou-se em Curitiba (PR) em 1997. Sim, Mirian morou em alguns lugares do Brasil por fazer parte, vigorosamente, do ministério do Pr. Gilson Grüdtner, seu querido marido. Por esse motivo, teve a oportunidade de lecionar no Colégio Adventista de Porto Alegre (RS), no Colégio Curitibano Bom Retiro (PR), no Colégio Adventista do Rio de Janeiro (RJ) e no Colégio Adventista Jardim dos Estados (MS). Foram 10 anos atuando como professora em sala de aula, mas os planos mudaram com o passar do tempo. “Parei dois anos para cuidar e depois alfabetizar a [filha] mais velha, e parei definitivo para alfabetizar a caçula. E comecei a escrever”, descreve.

Mudança oportuna

Assim como a sala de aula caiu em suas mãos de forma súbita e inesperada, parar e começar a escrever foi outro marco na vida de Mirian. “A pauta [para começar a escrever] foi uma crise existencial aos 30 anos, que me fez perder o sentido da vida e que me sacudiu por inteiro. Vendo-me completamente sem chão e sem teto, emocionalmente falando, tive o grande e verdadeiro encontro da minha vida com Deus”, relembra o triste momento.

Após cinco longos meses “na pior” e em total crise, percebeu a voz de Deus incentivando-a a retomar a comunhão com Ele, fazer exercício físico, cuidar da alimentação, beber água, descansar, cultivar emoções e adquirir um hobby. Dentro de um mês, sua vida já estava mudada. Escrever se tornou efetivamente seu hobby e as ideias não paravam de borbulhar em sua mente. Certa vez, enquanto fazia sua caminhada, histórias infantis começaram a surgir em sua mente que envolviam palavras cuja a escrita ela percebera dificuldade entre os alunos – X e CH, LH e LI, G e J, entre outros.

Em poucos meses, essas 9 histórias viraram 9 livros. Em 2007 o livro Mania Eletrônica foi publicado pela Casa Publicadora Brasileira (CPB) e os demais por uma editora em parceria com o Ministério da Educação (MEC), em 2012. Não escreveu somente livros infantis mas também para adultos.

O feedback que recebeu de seus leitores a motivava cada vez mais a escrever. Certa vez recebeu uma carta de um rapaz que estava na cadeia. Nessa carta ele contava como havia decidido por fim à vida, mas, ao ler o livro de Mirian, sua vontade de viver havia se renovado. As crianças também lhe enviavam cartas sobre o livro Mania Eletrônica contando as histórias sobre os pais que estavam viciados na “mania eletrônica”. Era gratificante ver todas essas reações.

Atualmente, Mirian Montanari Grüdtner está preparando a Meditação da Mulher para 2021 (CPB), trabalhando em projetos infantis para a Safeliz, uma editora espanhola, com uma Coleção de Histórias com Valores em três volumes. Mesmo com tantos projetos em mãos, a escritora se sente bem pequena. “Dou toda a honra a Deus, porque somos apenas vasos frágeis. Mas quando permitimos que Ele aja em nós, somos incrivelmente surpreendidos com Seu poder nos usando. É Ele!”, exprime com toda emoção a autora de mais de uma dezena de livros publicados.

Quem diria que aquela menina de três anos que acabara de ganhar seu primeiro livro, a jovem de 19 anos que saíram correndo da prova de Enfermagem e a professora conselheira de muitos alunos seria a mesma pessoa que hoje compartilha sua experiência através das palavras como inspiração para muitos? Partilhar valores que parecem que têm sido esquecidos por nossa cultura é um de seus objetivos. Nunca é tarde para resgatar modelos imutáveis baseados na Palavra de Deus.

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Texto escrito por Kemelly Ferreira, estudante do 4º ano de Jornalismo do Unasp-EC e estagiária da REA
Revisão por Alysson Huf, coeditor da REA